Era o matraquear de saltos agudos contra o mármore da escadaria. Insolente, contra a ternura dos pianíssimos que se escapavam pela soleira do apartamento do primeiro direito posterior. E eu sei, porque me aproximei como um ladrão e senti os frémitos na ponta dos dedos. Ali, a música nascia, ali o útero.
Ou então a música soou dentro, pelas mãos fantasmas de um ser gentil que te seguraria a alma em momentos. Alma é uma palavra tão gasta, mas continua a sair-me dos dedos como um sonho cansado. São patranhas ridículas ou nasceste mesmo para desejar cinco quartos de lua e não menos?
Descalçou os sapatos de saltos agudos e despiu os pés em passos etéreos. E subiu-se à ponta dos dedos, justamente como fazia nas aulas de dança, e ficou mais perto, de uma altura de deuses.
Se viesses, eu venderia a lua a um estranho e um dia, chegaria muito perto e dir-te-ia ao ouvido que há uma menina que vive fugindo, porque roubou aos deuses um toque de midas. E quando morrer, ninguém saberá que caminhava no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos. Mas tu haverias de saber.
Quando conseguimos aliar a subtileza dos pequenos gestos do nosso respirar com o domínio das palavras, isso é talento.
ResponderEliminarParabéns, Elisabete!
Cada vez mais a sua escrita se consolida em mim como algo permanente. Não é virtual, mas tangível. Queria ter seu nome nas lombadas de minha estante. Até lá, fica o vão vazio a esperar suas páginas.
ResponderEliminarEu gostaria muito de ter um dia caminhado no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos...e que alguém especial soubesse.
ResponderEliminarLindo!
beijos.
Visitem
ResponderEliminarhttp://culturadoiro.wordpress.com/
cinco quartos de lua e não menos
ResponderEliminaré a altura exacta entre cada pé
e um deus
um beijo Elisabete e escreva sempre, assim!
A minha estante também continua à espera...Muito bonito,o texto.
ResponderEliminarBeijinho
Cara Elisabete: há muito que segue o meu blogue, a casa que caminha, não sei se passa por ele, mas eu nunca tinha visitado o seu.
ResponderEliminarTem textos belíssimos e gostei particularmente deste. Se não se importa vou colocá-lo no meu blogue, com a devida vénia.
Voltarei mais vezes
António
Diga-me por favor, que nome hei-de eu por na autoria do texto. Obrigado
ResponderEliminarAntónio