quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Ele fala para ela e é sobre ela que lhe diz. Com a lógica fria de quem expõe um raciocínio, mas as palavras são delicadas, escolhidas até, como se a desenhasse com os dedos, mas de longe, assim de longe. 
Ela escuta sem se deixar perturbar. Ele fala-lhe dela como se falasse da personagem de um livro que o tivesse fascinado e ela escuta sem o menor constrangimento ou traço de rubor, a personagem tem o seu nome e é só. 
E quando ele se suspende, ela pede mais, com uma ingenuidade estudada ou só genuína mas velha, já não sei. E adiante perguntará como assim?, como se não tivesse entendido, mas é só a avidez que não cala e remorde. Porque a vaidade não tem fim, nascida irmã do medo fundo. O paradoxo de se ser tudo e tão pouco, caminhando em bicos de pés, mas de olhos baixos, expiando culpas. 
No entremeio, ele estica os dedos, querendo tocá-la. Ela retrai-se, o fácies tenso, agressivo, o olhar leonino, o sobressalto. 
Não é amor, é somente a sedução do impossível, a vontade de tocar o que é longe e intangível. E depois partir. E o abraço de hoje haveria de doer amanhã, mossa que ficou de uma intimidade vã, descartável. 
Diz-se da lágrima de uma sereia que é um tesouro. Buscá-la é coragem ou cobardia?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Dizes que não gostas da chuva e eu julgo compreender porquê. Não gostas da chuva porque não sabes ser triste e desconheces o peso de um olhar que constantemente se vidra num além que não existe.
E se a tristeza for somente uma vaidade do rosto, ou do olhar, digo que as linhas que te desenham lhe são longe.
A tristeza em ti é uma inocência. Ficaste calado e espantado enquanto a tristeza te acontecia. Eu olhei-te com certa altivez, como quem olha uma criança que não sabe do mundo. E eu juro que também não sei, mas gosto da chuva, como se tivesse nascido com sulcos de água no rosto.
Não sei que te disse, palavras de circunstância que seriam a marca de uma serenidade ou aceitação que eu nunca tive. Cansada de me ouvir, prometi-te um abraço, o único remendo que conheço.

sábado, 5 de novembro de 2011


Não saberia dizer há quanto tempo o silêncio. De repente, ergueu a cabeça do livro, estranhando o silêncio gritante num autocarro cheio de gente. Gente fala de tudo e constantemente, num chorrilho de sabedorias sem fim.
A mulher a seu lado não tem nome nem rosto. É uma mulher num assento de autocarro. Não sabe que essa mulher tem uma cereja no lugar da voz. Cereja cresce e vira maçã, grande e opressiva, e então a mulher solta um soluço que soa como uma imprecação no autocarro calado. Ela é raiva de si mesma porque não susteve as lágrimas e essa atrapalhação que sente, como quem cometesse uma indiscrição, é um pedido de desculpa. Também para a pessoa a seu lado, que não consegue fixar uns olhos lacrimosos e a espreita, constrangida com tamanha mostra de impudor. E talvez o mesmo olhar piedoso com que se olha um louco na rua.
Mas ela não é louca, não ainda, não dessa loucura que é um decreto dos outros. E, por isso, maior a estranheza dos que a tomam como igual. Os loucos são olhados com piedade e benevolência, são loucos que não ofendem, porque são loucos. Ela está no outro círculo e prevaricou. Foi um descuido. De ora em diante, terá o cuidado de ser louca numa caixa sem janelas, para que ninguém veja e se ofenda. E da próxima vez, fará da cereja um sorriso, numa hipocrisia que é o pão nosso de cada dia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hoje lembrei-me que um dia vieste. Sem que to pedisse, porque nunca peço, mesmo querendo sempre e tanto. E se um dia pedir um abraço e mo negarem, hei-de forjar um sorriso que o olhar desatento entenderá como genuíno, e dizer que brincava apenas, abraço é tão quente, também não quereria. Mas queria e o que me ficará é a tristeza de coleccionar afectos extraviados. Hei-de mentir sempre e de todas as vezes.

Era noite e no quarto vazio caminhavam homens de vestes negras. A cereja na garganta crescia, prestes a desabar em lágrimas de menina. Mas tu vieste e deitaste o corpo a meu lado e encheste de ridículo todos os medos. Calaram-se os corvos lá fora e na noite abriu-se um silêncio que não era mais negro e onde cabia um sono de paz.

E depois partiste e deixaste um mundo onde cresciam bruxas e desfiladeiros. E eu só sei ser triste de tristezas inventadas, a tristeza que vem até nós verdadeira é fria e dói demais. E eu sou fraca e cobarde e fiz do meu mundo uma casa de bonecas, num mundo maior, de gigantes e intempéries.

Perdes-te na névoa da noite, diluis-te em sombras de castanheiro e lambes as feridas, dás sossego ao coração lá, nesse teu refúgio de conchas, de mar, de azul-turquesa. Nesse lugar não há ninguém, apenas tu e os sonhos a que te entregas e em que te embalas. Lá nada dói, não há dúvidas, conflitos, voltaste ao útero, ao cálido oceano que te sustém e onde te guardas. Nunca trouxeste esses sonhos para a luz do dia e, por isso, quando regressas àquilo que para ti é a vida corres, corres sem parar, como se pudesses encher de pressa esse vazio que te fica. Sabes que não; e os sonhos sem a vida vão desbotando e a vida sem o que sonhas fica apenas um espectro de transparentes promessas.

Maria João Saraiva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011