sábado, 5 de novembro de 2011


Não saberia dizer há quanto tempo o silêncio. De repente, ergueu a cabeça do livro, estranhando o silêncio gritante num autocarro cheio de gente. Gente fala de tudo e constantemente, num chorrilho de sabedorias sem fim.
A mulher a seu lado não tem nome nem rosto. É uma mulher num assento de autocarro. Não sabe que essa mulher tem uma cereja no lugar da voz. Cereja cresce e vira maçã, grande e opressiva, e então a mulher solta um soluço que soa como uma imprecação no autocarro calado. Ela é raiva de si mesma porque não susteve as lágrimas e essa atrapalhação que sente, como quem cometesse uma indiscrição, é um pedido de desculpa. Também para a pessoa a seu lado, que não consegue fixar uns olhos lacrimosos e a espreita, constrangida com tamanha mostra de impudor. E talvez o mesmo olhar piedoso com que se olha um louco na rua.
Mas ela não é louca, não ainda, não dessa loucura que é um decreto dos outros. E, por isso, maior a estranheza dos que a tomam como igual. Os loucos são olhados com piedade e benevolência, são loucos que não ofendem, porque são loucos. Ela está no outro círculo e prevaricou. Foi um descuido. De ora em diante, terá o cuidado de ser louca numa caixa sem janelas, para que ninguém veja e se ofenda. E da próxima vez, fará da cereja um sorriso, numa hipocrisia que é o pão nosso de cada dia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hoje lembrei-me que um dia vieste. Sem que to pedisse, porque nunca peço, mesmo querendo sempre e tanto. E se um dia pedir um abraço e mo negarem, hei-de forjar um sorriso que o olhar desatento entenderá como genuíno, e dizer que brincava apenas, abraço é tão quente, também não quereria. Mas queria e o que me ficará é a tristeza de coleccionar afectos extraviados. Hei-de mentir sempre e de todas as vezes.

Era noite e no quarto vazio caminhavam homens de vestes negras. A cereja na garganta crescia, prestes a desabar em lágrimas de menina. Mas tu vieste e deitaste o corpo a meu lado e encheste de ridículo todos os medos. Calaram-se os corvos lá fora e na noite abriu-se um silêncio que não era mais negro e onde cabia um sono de paz.

E depois partiste e deixaste um mundo onde cresciam bruxas e desfiladeiros. E eu só sei ser triste de tristezas inventadas, a tristeza que vem até nós verdadeira é fria e dói demais. E eu sou fraca e cobarde e fiz do meu mundo uma casa de bonecas, num mundo maior, de gigantes e intempéries.

Perdes-te na névoa da noite, diluis-te em sombras de castanheiro e lambes as feridas, dás sossego ao coração lá, nesse teu refúgio de conchas, de mar, de azul-turquesa. Nesse lugar não há ninguém, apenas tu e os sonhos a que te entregas e em que te embalas. Lá nada dói, não há dúvidas, conflitos, voltaste ao útero, ao cálido oceano que te sustém e onde te guardas. Nunca trouxeste esses sonhos para a luz do dia e, por isso, quando regressas àquilo que para ti é a vida corres, corres sem parar, como se pudesses encher de pressa esse vazio que te fica. Sabes que não; e os sonhos sem a vida vão desbotando e a vida sem o que sonhas fica apenas um espectro de transparentes promessas.

Maria João Saraiva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Era o matraquear de saltos agudos contra o mármore da escadaria. Insolente, contra a ternura dos pianíssimos que se escapavam pela soleira do apartamento do primeiro direito posterior. E eu sei, porque me aproximei como um ladrão e senti os frémitos na ponta dos dedos. Ali, a música nascia, ali o útero.
Ou então a música soou dentro, pelas mãos fantasmas de um ser gentil que te seguraria a alma em momentos. Alma é uma palavra tão gasta, mas continua a sair-me dos dedos como um sonho cansado. São patranhas ridículas ou nasceste mesmo para desejar cinco quartos de lua e não menos?
Descalçou os sapatos de saltos agudos e despiu os pés em passos etéreos. E subiu-se à ponta dos dedos, justamente como fazia nas aulas de dança, e ficou mais perto, de uma altura de deuses.
Se viesses, eu venderia a lua a um estranho e um dia, chegaria muito perto e dir-te-ia ao ouvido que há uma menina que vive fugindo, porque roubou aos deuses um toque de midas. E quando morrer, ninguém saberá que caminhava no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos. Mas tu haverias de saber.

sábado, 20 de agosto de 2011