sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hoje lembrei-me que um dia vieste. Sem que to pedisse, porque nunca peço, mesmo querendo sempre e tanto. E se um dia pedir um abraço e mo negarem, hei-de forjar um sorriso que o olhar desatento entenderá como genuíno, e dizer que brincava apenas, abraço é tão quente, também não quereria. Mas queria e o que me ficará é a tristeza de coleccionar afectos extraviados. Hei-de mentir sempre e de todas as vezes.

Era noite e no quarto vazio caminhavam homens de vestes negras. A cereja na garganta crescia, prestes a desabar em lágrimas de menina. Mas tu vieste e deitaste o corpo a meu lado e encheste de ridículo todos os medos. Calaram-se os corvos lá fora e na noite abriu-se um silêncio que não era mais negro e onde cabia um sono de paz.

E depois partiste e deixaste um mundo onde cresciam bruxas e desfiladeiros. E eu só sei ser triste de tristezas inventadas, a tristeza que vem até nós verdadeira é fria e dói demais. E eu sou fraca e cobarde e fiz do meu mundo uma casa de bonecas, num mundo maior, de gigantes e intempéries.

Perdes-te na névoa da noite, diluis-te em sombras de castanheiro e lambes as feridas, dás sossego ao coração lá, nesse teu refúgio de conchas, de mar, de azul-turquesa. Nesse lugar não há ninguém, apenas tu e os sonhos a que te entregas e em que te embalas. Lá nada dói, não há dúvidas, conflitos, voltaste ao útero, ao cálido oceano que te sustém e onde te guardas. Nunca trouxeste esses sonhos para a luz do dia e, por isso, quando regressas àquilo que para ti é a vida corres, corres sem parar, como se pudesses encher de pressa esse vazio que te fica. Sabes que não; e os sonhos sem a vida vão desbotando e a vida sem o que sonhas fica apenas um espectro de transparentes promessas.

Maria João Saraiva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Era o matraquear de saltos agudos contra o mármore da escadaria. Insolente, contra a ternura dos pianíssimos que se escapavam pela soleira do apartamento do primeiro direito posterior. E eu sei, porque me aproximei como um ladrão e senti os frémitos na ponta dos dedos. Ali, a música nascia, ali o útero.
Ou então a música soou dentro, pelas mãos fantasmas de um ser gentil que te seguraria a alma em momentos. Alma é uma palavra tão gasta, mas continua a sair-me dos dedos como um sonho cansado. São patranhas ridículas ou nasceste mesmo para desejar cinco quartos de lua e não menos?
Descalçou os sapatos de saltos agudos e despiu os pés em passos etéreos. E subiu-se à ponta dos dedos, justamente como fazia nas aulas de dança, e ficou mais perto, de uma altura de deuses.
Se viesses, eu venderia a lua a um estranho e um dia, chegaria muito perto e dir-te-ia ao ouvido que há uma menina que vive fugindo, porque roubou aos deuses um toque de midas. E quando morrer, ninguém saberá que caminhava no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos. Mas tu haverias de saber.

sábado, 20 de agosto de 2011

É alto, caminha um palmo acima e ela não lhe vê os olhos. Por isso deseja que lhe trave o passo e lhe pouse os lábios na fronte ou no cabelo. Só para lhe saber do amor, que nunca é eterno e se conhece instante a instante. Mas o amor atrasa-se constantemente.
Adiante, ela pega-lhe na mão. A sua mão direita e a mão esquerda dele. Só quando estão de frente as mãos se olham em espelho. Fá-lo parecer natural, espontâneo, como se nem tivesse reparado na mão que se escapou do orgulho. Mas queima e os pensamentos, nesses instantes, são feitos de pele entrelaçada.
A dada altura, ela olha-o fixamente e abre-lhe um sorriso que é uma pergunta, uma intimação. Ele responde com um sorriso também. Mas.
Não espera palavras. Ocasionalmente, talvez. São gestos que quer. Gestos de amor para um vício de amor que não cura. E o egoísmo de o querer vulnerável num amor que o curvasse nos desejos e nas vontades.

(Que ames sempre. Eu amo, sobretudo às vezes. Foi um poeta quem disse, mas eu sou poeta também. No desajuste. E na coroa que me faz altivo o porte. E um rei não mendiga, nem sequer amor.)