sábado, 13 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

(Antes de vir, por dias me rondei. Era medo. Do desencontro, talvez.)

Choveu, escutam-se as rodas nervosas no asfalto molhado e, nos entremeios, um silêncio gordo que é uma espécie de zumbido que se desenha em espirais.
Pergunto-me quem são e se acaso já olharam a noite de frente. Eu não. Espreito-a e temo e cobiço. E é a ela que vendo a minha intimidade.
E pressinto-a. A tristeza em mim não é sentida, é pressentida, entendes isso?
A noite. Tal como a música, entra-se em mim e entranha-se e quando o dia romper no alvoroço de uma luz muito branca, talvez persista ainda o desajuste.
O sono é o remedeio. Mas às vezes, até aí a lucidez se vence. E então abro os olhos e há um corpo deitado a meu lado. E então os olhos ardentes fixam as órbitas vazias de um olhar assombrado. É o medo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Clandestino

E eu no meu quarto murmurando palavras, labaredas a esmorecer dentro da luz do dia. Labaredas negras luzindo no fim da noite, quase dia. O tremor da noite a morrer. A fundura da noite a clarear. O dia a devorar golfadas de sombras e pensamentos ruins. E eles a trespassar o meu corpo e o escuro, como uma espada de aço, fria, fria. E eu penso e sonho e imagino coisas que nem a mim conto. E sinto as minhas mãos desgovernadas a tactearem a luz e o meu corpo, como se acariciassem as crinas de um cavalo, a fímbria espumosa de uma onda, a finíssima pele da água parada no fundo de um poço. O desejo, o lobo, o medo irrompendo na pele onde as minhas mãos se detêm sem pressas: tocando, mexendo, imaginando coisas.
O Perfumista, Joaquim Mestre

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quer-se solto e livre o meu amor
Cavalo sem freio
Ou o andar gingado de um verso


domingo, 29 de maio de 2011

A Lycra do maiô caía na pele como se também fosse. Pele.
Era a nudez absoluta das linhas do corpo: os seios, a concavidade da cintura, as pernas bem torneadas numa distinta anatomia.
O colo bonito, antecâmara de um rosto de linhas vincadas com suavidade, rainha do gelo.
O cabelo apanhado, colado ao crânio, a mesma intransigência que lhe forja o olhar na distância.
Pulsos brancos, tão finos, que são a marca de uma delicadeza que lhe desce pelas mãos de dedos longos, candelabros sem chama, que a beleza é fria e nela não tocarás.
E a linha das clavículas que é o verbo mais-que-perfeito no corpo de uma mulher.
Quando se ergue em pontas de gesso, sustém a respiração e os dentes cerram-se com força, porque dói. Mas está um palmo acima de si e talvez seja capaz de olhar deus nos olhos. O cetim esconde pés ensanguentados. Tudo é belo nela excepto os pés. Os pés nus, deposta a máscara, gritam de dor.
A silhueta de uma bailarina.

Essa fada