(Antes de vir, por dias me rondei. Era medo. Do desencontro, talvez.)
Choveu, escutam-se as rodas nervosas no asfalto molhado e, nos entremeios, um silêncio gordo que é uma espécie de zumbido que se desenha em espirais.
Pergunto-me quem são e se acaso já olharam a noite de frente. Eu não. Espreito-a e temo e cobiço. E é a ela que vendo a minha intimidade.
E pressinto-a. A tristeza em mim não é sentida, é pressentida, entendes isso?
A noite. Tal como a música, entra-se em mim e entranha-se e quando o dia romper no alvoroço de uma luz muito branca, talvez persista ainda o desajuste.
O sono é o remedeio. Mas às vezes, até aí a lucidez se vence. E então abro os olhos e há um corpo deitado a meu lado. E então os olhos ardentes fixam as órbitas vazias de um olhar assombrado. É o medo.