terça-feira, 2 de agosto de 2011

Clandestino

E eu no meu quarto murmurando palavras, labaredas a esmorecer dentro da luz do dia. Labaredas negras luzindo no fim da noite, quase dia. O tremor da noite a morrer. A fundura da noite a clarear. O dia a devorar golfadas de sombras e pensamentos ruins. E eles a trespassar o meu corpo e o escuro, como uma espada de aço, fria, fria. E eu penso e sonho e imagino coisas que nem a mim conto. E sinto as minhas mãos desgovernadas a tactearem a luz e o meu corpo, como se acariciassem as crinas de um cavalo, a fímbria espumosa de uma onda, a finíssima pele da água parada no fundo de um poço. O desejo, o lobo, o medo irrompendo na pele onde as minhas mãos se detêm sem pressas: tocando, mexendo, imaginando coisas.
O Perfumista, Joaquim Mestre

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quer-se solto e livre o meu amor
Cavalo sem freio
Ou o andar gingado de um verso


domingo, 29 de maio de 2011

A Lycra do maiô caía na pele como se também fosse. Pele.
Era a nudez absoluta das linhas do corpo: os seios, a concavidade da cintura, as pernas bem torneadas numa distinta anatomia.
O colo bonito, antecâmara de um rosto de linhas vincadas com suavidade, rainha do gelo.
O cabelo apanhado, colado ao crânio, a mesma intransigência que lhe forja o olhar na distância.
Pulsos brancos, tão finos, que são a marca de uma delicadeza que lhe desce pelas mãos de dedos longos, candelabros sem chama, que a beleza é fria e nela não tocarás.
E a linha das clavículas que é o verbo mais-que-perfeito no corpo de uma mulher.
Quando se ergue em pontas de gesso, sustém a respiração e os dentes cerram-se com força, porque dói. Mas está um palmo acima de si e talvez seja capaz de olhar deus nos olhos. O cetim esconde pés ensanguentados. Tudo é belo nela excepto os pés. Os pés nus, deposta a máscara, gritam de dor.
A silhueta de uma bailarina.

Essa fada


terça-feira, 17 de maio de 2011

domingo, 15 de maio de 2011


Lembro-me de olhar o mar e ver fúria só. E durante anos o motivo que a tantos inspira não foi capaz de provocar o mais leve estremecimento na sensibilidade que tão esmeradamente afinei. Estava errado em mim e eu sabia.
Tantos anos passaram até que ocupasse o devido lugar no círculo dos meus amores eternos. O mar de Sophia. Mas veio, como estava certo que viesse.

segunda-feira, 25 de abril de 2011


Se eu, escrevendo, disser que amo, não saberás quem ama, se eu, se a minha vontade.
E nada lerás no meu olhar, senão a agressividade de um animal acossado. O homem pediu-me que não o olhasse daquela maneira. Eu não sabia e constrangeu-me que me tomasse como assaltante. Desde então aprendi a baixar o olhar como quem esconde um pecado.
Digo eu. Digo ela e pensarás que é narciso disfarçado.
Eu não sei. Às vezes, até a mim os véus me confundem. É que o jogo de espelhos pode ser muito perverso. E se tentares fugir, caminharás durante longo tempo e quando parares para recobrar o fôlego, julgando estar longe longe, terás dado a volta ao mundo e estarás um passo ao lado do sítio de onde partiste. Com o amor e o ódio deve ser assim também. O círculo à imagem de deus.
É um círculo. A recta que uniu as pontas num redondo perfeito. Não procures encontrar-me lá, limita-te a aceitar que o círculo é meu e assim me confesso. Mas lembra-te, mais do que uma verdade, a escrita é uma mentira que cobiço.

sábado, 9 de abril de 2011

Laughing with your broken eyes, when the stars go blue...

terça-feira, 5 de abril de 2011


Janet Treby

De vez em quando, estacada na escadaria, ela escuta a melodia. A acústica do prédio não o protege naquela que é, porventura, a sua maior intimidade e as notas angustiadas encontram um poiso certo numa caixinha que ela guarda dentro e onde, tanta vez, ressoa a angústia também.
O pianista sem rosto tem dedos machos. Ela não sabe, mas sabe. Dedos machos e longas pestanas nos olhos inquietos que lhe denunciam a fatalidade. Ela não sabe, mas sabe.
Um dia, ela escutou os acordes imperfeitos da sua música em gestação. Nem por isso lhe soou menos bela. A sua música. Porque acredita que à força de tanto gostar, pode fazer dela as coisas belas do mundo.
A sua música nasceria perfeita daí a uns dias e ela, num acaso de magia, escutá-la-ia também.
Ele toca para ela, porque é ela que o acompanha nesse momento de intimidade maior, em que se julga mais só. Sentada num degrau ela escuta, atrasando a entrada em casa, onde a melodia soa mais distante e nebulosa.
Dele não sabe o rosto, apenas os olhos que se lhe enformam na imaginação. No momento em que a música se suspender, suspeitosa, ela entrará em casa e o pianista sem rosto encontrará a escadaria vazia. A música é o desencontro deles, mas o requiem da música é o silêncio.

domingo, 3 de abril de 2011

peçam-lhe que venha tão
depressa, digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros cada vez menos (...)

perguntem-lhe por mim e
se pode vir
para recolher o
meu corpo no fim
só bulido pelo vento

e se o vento é conjunto
de pássaros invisíveis ou seres
tão claros , escondam que sou
cruel, que fico a debulhar
anjos como flores para saber
se bem ou mal me quer (...)

meu amor inventado
ainda assim tanto demoras

quantas vezes te inventei
ao pé das
águas do lago e
imaginei que me empurravas
ladeira abaixo
para enfim
morrer de amor (...)

terás de perdoar a
tristeza do meu corpo, ele
não entende o que estou
a fazer

e se alguma vez me
vires nos teus sonhos
sacode-me a terra ao coração (...)

e faz-me sempre assim,
empoleirada nos telhados
a enganar os girassóis (...)

abençoo-te para sempre
e é assim que morro, corajosa
a escrever um livro de
amor sem chorar

O resto da minha alegria, Valter Hugo Mãe

She's like the wind


domingo, 13 de março de 2011


Innocence, Janet Treby


Tu que vives embalando sonhos no resguardo de um berço que deixa a realidade lá longe. És forasteira no mundo, pois que dos teus olhos se vê um lugar inventado. Ousa. Atreve-te a sentir a chuva mais perto. Que sabes tu da água escorrendo fria pelos lugares do corpo?
E ela assim fez. Assim se fez.
Caminhou descalça na noite que cobiça de longe, a branca camisa adejando-lhe ao pés, e deu-se à chuva como nunca se deu a ninguém, fazendo da água um amante perfeito.
As linhas de chuva oblíquas que lhe atravessavam o corpo, penetrando-a, eram dedos tacteando-lhe a pele numa selvajaria de sentidos ao rubro. E o ruído agreste era uma voz impudica que lhe gritava uma entrega e a fazia corar de pudor.
Esqueceu o espelho de latão onde namora o rosto e atreveu-se a olhar-se debruçada sobre as águas de um rio assolado pela chuva. Julgou que a água em desassossego, que está e já não está, porque se abraça constantemente em violência, era a imagem da sua alma despida, nua de confortos e falsas seguranças. Julgou que a turbulência que via era dela, era ela. Talvez seja. Talvez sejas.
No instante em que se rasgou o vestido, vieram lágrimas que a chuva bebeu. Na promiscuidade de duas águas que se beijam, ninguém viu que chorava.
Quando regressou ao berço, cobriu a nudez com um xaile de ouro. Olhou-se ao espelho como sempre fazia e viu a pupila, que é o negro dos olhos, crescer, como sombra que alastrasse no seu corpo. Para que nasçam sombras, pedaços brancos terão de morrer. E se quiseres pintar o negro de uma claridade nova, será que podes? Ou o branco que nasce das trevas ficará sempre sujo e maculado?
É mentira. Molhei-me de palavras e estou ainda sentada à janela, do lado de dentro de uma transparência sólida feita de vidro. Talvez não saibas, mas muros sem cor são também barreiras onde moram prisões. São assim algumas das minhas transparências. E por isso adio a coragem.

sábado, 12 de março de 2011


Audrey Hepburn


As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas;

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

Carlos de Oliveira

domingo, 6 de março de 2011

Porque quando me encontrar, hei-de encontrar-te e, mesmo tendo destruído a ponte, serei capaz de atravessar o rio a nado.

when you find your castle on the hill
with the bars on the windows
will you burn the bridge behind you
will you ever come out and see the sun again
or will you hide
and now how long has it been
since you've seen the light

make your way on the stairs
to the top of your tower
stone cold flowers
hardwood doors
lead to your room of plastic flowers
they still look the same
drenched in water
it comforts you to think that they're alive

quarta-feira, 2 de março de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Leio e está aqui o que gostaria de escrever, como escrito pela mão de um deus. Mas eu não sinto este tanto e, mesmo que o sentisse, de que valeria expor a mesma evidência?
Sim, eu sei, a vida não tem forçosamente um propósito, mas vai-me parecendo que nasci no dia em que no universo se trocaram signos e vontades.
Ao que vim? Quanto mais é preciso crescer? Se o meu destino não é calado, então porque não se diz?
Leio e cobiço a escrita demoníaca desta mulher que faz da palavra uma orgia dos sentidos. A inveja que nasce do reconhecimento sentido do dom do outro. E, como ela, eu nasci. E, como ela, eu sinto e sangro e desatino. Mas não chego. E se chegar, de que vale, se há sempre um além maior que a vida que te foi dada?
Eu estou viva, ela já não. Só nisto sou maior do que ela. Uma grandeza temporária e sem mérito algum e, todavia, fundamental. Ela está morta, eu ainda não.
Surpreendo-me. Porque tu soubeste a morte do jeito que poucos sabem e ainda assim. Morreste e és nada. Que é da alma que dizias não poder conter? Alma: como te deixas vencer por um pedaço de corpo apodrecido?

"A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo."
Luís Miguel Nava

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


Os dedos que seguram o livro estão gelados. Leio e não entendo, mas leio. Porque há nestas palavras que os meus olhos recolhem com gula uma toada encantatória onde se reconhece a minha loucura. Não posso forçar o entendimento, a inteligência ou a sensibilidade, mas enxergo com uma clareza fria os espaços vazios naquilo que sou. Olho a direito com olhos que não sossegam e se remordem na certeza de que mais acima há um céu de azul e prata. O que me distingue não é o que sou, antes a vontade de ser. E nesta vontade, bravia, selvagem, indómita, me faço Rainha.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de ser ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mais - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.