Laughing with your broken eyes, when the stars go blue...
sábado, 9 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011

Janet Treby
De vez em quando, estacada na escadaria, ela escuta a melodia. A acústica do prédio não o protege naquela que é, porventura, a sua maior intimidade e as notas angustiadas encontram um poiso certo numa caixinha que ela guarda dentro e onde, tanta vez, ressoa a angústia também.
O pianista sem rosto tem dedos machos. Ela não sabe, mas sabe. Dedos machos e longas pestanas nos olhos inquietos que lhe denunciam a fatalidade. Ela não sabe, mas sabe.
Um dia, ela escutou os acordes imperfeitos da sua música em gestação. Nem por isso lhe soou menos bela. A sua música. Porque acredita que à força de tanto gostar, pode fazer dela as coisas belas do mundo.
A sua música nasceria perfeita daí a uns dias e ela, num acaso de magia, escutá-la-ia também.
Ele toca para ela, porque é ela que o acompanha nesse momento de intimidade maior, em que se julga mais só. Sentada num degrau ela escuta, atrasando a entrada em casa, onde a melodia soa mais distante e nebulosa.
Dele não sabe o rosto, apenas os olhos que se lhe enformam na imaginação. No momento em que a música se suspender, suspeitosa, ela entrará em casa e o pianista sem rosto encontrará a escadaria vazia. A música é o desencontro deles, mas o requiem da música é o silêncio.
domingo, 3 de abril de 2011
peçam-lhe que venha tão
depressa, digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros cada vez menos (...)
perguntem-lhe por mim e
se pode vir
para recolher o
meu corpo no fim
só bulido pelo vento
e se o vento é conjunto
de pássaros invisíveis ou seres
tão claros , escondam que sou
cruel, que fico a debulhar
anjos como flores para saber
se bem ou mal me quer (...)
meu amor inventado
ainda assim tanto demoras
quantas vezes te inventei
ao pé das
águas do lago e
imaginei que me empurravas
ladeira abaixo
para enfim
morrer de amor (...)
terás de perdoar a
tristeza do meu corpo, ele
não entende o que estou
a fazer
e se alguma vez me
vires nos teus sonhos
sacode-me a terra ao coração (...)
e faz-me sempre assim,
empoleirada nos telhados
a enganar os girassóis (...)
abençoo-te para sempre
e é assim que morro, corajosa
a escrever um livro de
amor sem chorar
O resto da minha alegria, Valter Hugo Mãe
domingo, 13 de março de 2011

Innocence, Janet Treby
Tu que vives embalando sonhos no resguardo de um berço que deixa a realidade lá longe. És forasteira no mundo, pois que dos teus olhos se vê um lugar inventado. Ousa. Atreve-te a sentir a chuva mais perto. Que sabes tu da água escorrendo fria pelos lugares do corpo?
E ela assim fez. Assim se fez.
Caminhou descalça na noite que cobiça de longe, a branca camisa adejando-lhe ao pés, e deu-se à chuva como nunca se deu a ninguém, fazendo da água um amante perfeito.
As linhas de chuva oblíquas que lhe atravessavam o corpo, penetrando-a, eram dedos tacteando-lhe a pele numa selvajaria de sentidos ao rubro. E o ruído agreste era uma voz impudica que lhe gritava uma entrega e a fazia corar de pudor.
Esqueceu o espelho de latão onde namora o rosto e atreveu-se a olhar-se debruçada sobre as águas de um rio assolado pela chuva. Julgou que a água em desassossego, que está e já não está, porque se abraça constantemente em violência, era a imagem da sua alma despida, nua de confortos e falsas seguranças. Julgou que a turbulência que via era dela, era ela. Talvez seja. Talvez sejas.
No instante em que se rasgou o vestido, vieram lágrimas que a chuva bebeu. Na promiscuidade de duas águas que se beijam, ninguém viu que chorava.
Quando regressou ao berço, cobriu a nudez com um xaile de ouro. Olhou-se ao espelho como sempre fazia e viu a pupila, que é o negro dos olhos, crescer, como sombra que alastrasse no seu corpo. Para que nasçam sombras, pedaços brancos terão de morrer. E se quiseres pintar o negro de uma claridade nova, será que podes? Ou o branco que nasce das trevas ficará sempre sujo e maculado?
É mentira. Molhei-me de palavras e estou ainda sentada à janela, do lado de dentro de uma transparência sólida feita de vidro. Talvez não saibas, mas muros sem cor são também barreiras onde moram prisões. São assim algumas das minhas transparências. E por isso adio a coragem.
sábado, 12 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Porque quando me encontrar, hei-de encontrar-te e, mesmo tendo destruído a ponte, serei capaz de atravessar o rio a nado.
with the bars on the windows
will you burn the bridge behind you
will you ever come out and see the sun again
or will you hide
and now how long has it been
since you've seen the light
make your way on the stairs
to the top of your tower
stone cold flowers
hardwood doors
lead to your room of plastic flowers
they still look the same
drenched in water
it comforts you to think that they're alive
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