
Janet Treby
De vez em quando, estacada na escadaria, ela escuta a melodia. A acústica do prédio não o protege naquela que é, porventura, a sua maior intimidade e as notas angustiadas encontram um poiso certo numa caixinha que ela guarda dentro e onde, tanta vez, ressoa a angústia também.
O pianista sem rosto tem dedos machos. Ela não sabe, mas sabe. Dedos machos e longas pestanas nos olhos inquietos que lhe denunciam a fatalidade. Ela não sabe, mas sabe.
Um dia, ela escutou os acordes imperfeitos da sua música em gestação. Nem por isso lhe soou menos bela. A sua música. Porque acredita que à força de tanto gostar, pode fazer dela as coisas belas do mundo.
A sua música nasceria perfeita daí a uns dias e ela, num acaso de magia, escutá-la-ia também.
Ele toca para ela, porque é ela que o acompanha nesse momento de intimidade maior, em que se julga mais só. Sentada num degrau ela escuta, atrasando a entrada em casa, onde a melodia soa mais distante e nebulosa.
Dele não sabe o rosto, apenas os olhos que se lhe enformam na imaginação. No momento em que a música se suspender, suspeitosa, ela entrará em casa e o pianista sem rosto encontrará a escadaria vazia. A música é o desencontro deles, mas o requiem da música é o silêncio.

