domingo, 3 de abril de 2011

peçam-lhe que venha tão
depressa, digam-lhe que
não durmo e que estarei
no telhado entristecida a
desbotar ao sol
incomodando os pássaros cada vez menos (...)

perguntem-lhe por mim e
se pode vir
para recolher o
meu corpo no fim
só bulido pelo vento

e se o vento é conjunto
de pássaros invisíveis ou seres
tão claros , escondam que sou
cruel, que fico a debulhar
anjos como flores para saber
se bem ou mal me quer (...)

meu amor inventado
ainda assim tanto demoras

quantas vezes te inventei
ao pé das
águas do lago e
imaginei que me empurravas
ladeira abaixo
para enfim
morrer de amor (...)

terás de perdoar a
tristeza do meu corpo, ele
não entende o que estou
a fazer

e se alguma vez me
vires nos teus sonhos
sacode-me a terra ao coração (...)

e faz-me sempre assim,
empoleirada nos telhados
a enganar os girassóis (...)

abençoo-te para sempre
e é assim que morro, corajosa
a escrever um livro de
amor sem chorar

O resto da minha alegria, Valter Hugo Mãe

She's like the wind


domingo, 13 de março de 2011


Innocence, Janet Treby


Tu que vives embalando sonhos no resguardo de um berço que deixa a realidade lá longe. És forasteira no mundo, pois que dos teus olhos se vê um lugar inventado. Ousa. Atreve-te a sentir a chuva mais perto. Que sabes tu da água escorrendo fria pelos lugares do corpo?
E ela assim fez. Assim se fez.
Caminhou descalça na noite que cobiça de longe, a branca camisa adejando-lhe ao pés, e deu-se à chuva como nunca se deu a ninguém, fazendo da água um amante perfeito.
As linhas de chuva oblíquas que lhe atravessavam o corpo, penetrando-a, eram dedos tacteando-lhe a pele numa selvajaria de sentidos ao rubro. E o ruído agreste era uma voz impudica que lhe gritava uma entrega e a fazia corar de pudor.
Esqueceu o espelho de latão onde namora o rosto e atreveu-se a olhar-se debruçada sobre as águas de um rio assolado pela chuva. Julgou que a água em desassossego, que está e já não está, porque se abraça constantemente em violência, era a imagem da sua alma despida, nua de confortos e falsas seguranças. Julgou que a turbulência que via era dela, era ela. Talvez seja. Talvez sejas.
No instante em que se rasgou o vestido, vieram lágrimas que a chuva bebeu. Na promiscuidade de duas águas que se beijam, ninguém viu que chorava.
Quando regressou ao berço, cobriu a nudez com um xaile de ouro. Olhou-se ao espelho como sempre fazia e viu a pupila, que é o negro dos olhos, crescer, como sombra que alastrasse no seu corpo. Para que nasçam sombras, pedaços brancos terão de morrer. E se quiseres pintar o negro de uma claridade nova, será que podes? Ou o branco que nasce das trevas ficará sempre sujo e maculado?
É mentira. Molhei-me de palavras e estou ainda sentada à janela, do lado de dentro de uma transparência sólida feita de vidro. Talvez não saibas, mas muros sem cor são também barreiras onde moram prisões. São assim algumas das minhas transparências. E por isso adio a coragem.

sábado, 12 de março de 2011


Audrey Hepburn


As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas;

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

Carlos de Oliveira

domingo, 6 de março de 2011

Porque quando me encontrar, hei-de encontrar-te e, mesmo tendo destruído a ponte, serei capaz de atravessar o rio a nado.

when you find your castle on the hill
with the bars on the windows
will you burn the bridge behind you
will you ever come out and see the sun again
or will you hide
and now how long has it been
since you've seen the light

make your way on the stairs
to the top of your tower
stone cold flowers
hardwood doors
lead to your room of plastic flowers
they still look the same
drenched in water
it comforts you to think that they're alive

quarta-feira, 2 de março de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Leio e está aqui o que gostaria de escrever, como escrito pela mão de um deus. Mas eu não sinto este tanto e, mesmo que o sentisse, de que valeria expor a mesma evidência?
Sim, eu sei, a vida não tem forçosamente um propósito, mas vai-me parecendo que nasci no dia em que no universo se trocaram signos e vontades.
Ao que vim? Quanto mais é preciso crescer? Se o meu destino não é calado, então porque não se diz?
Leio e cobiço a escrita demoníaca desta mulher que faz da palavra uma orgia dos sentidos. A inveja que nasce do reconhecimento sentido do dom do outro. E, como ela, eu nasci. E, como ela, eu sinto e sangro e desatino. Mas não chego. E se chegar, de que vale, se há sempre um além maior que a vida que te foi dada?
Eu estou viva, ela já não. Só nisto sou maior do que ela. Uma grandeza temporária e sem mérito algum e, todavia, fundamental. Ela está morta, eu ainda não.
Surpreendo-me. Porque tu soubeste a morte do jeito que poucos sabem e ainda assim. Morreste e és nada. Que é da alma que dizias não poder conter? Alma: como te deixas vencer por um pedaço de corpo apodrecido?