sábado, 12 de março de 2011


Audrey Hepburn


As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas;

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

Carlos de Oliveira

domingo, 6 de março de 2011

Porque quando me encontrar, hei-de encontrar-te e, mesmo tendo destruído a ponte, serei capaz de atravessar o rio a nado.

when you find your castle on the hill
with the bars on the windows
will you burn the bridge behind you
will you ever come out and see the sun again
or will you hide
and now how long has it been
since you've seen the light

make your way on the stairs
to the top of your tower
stone cold flowers
hardwood doors
lead to your room of plastic flowers
they still look the same
drenched in water
it comforts you to think that they're alive

quarta-feira, 2 de março de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Leio e está aqui o que gostaria de escrever, como escrito pela mão de um deus. Mas eu não sinto este tanto e, mesmo que o sentisse, de que valeria expor a mesma evidência?
Sim, eu sei, a vida não tem forçosamente um propósito, mas vai-me parecendo que nasci no dia em que no universo se trocaram signos e vontades.
Ao que vim? Quanto mais é preciso crescer? Se o meu destino não é calado, então porque não se diz?
Leio e cobiço a escrita demoníaca desta mulher que faz da palavra uma orgia dos sentidos. A inveja que nasce do reconhecimento sentido do dom do outro. E, como ela, eu nasci. E, como ela, eu sinto e sangro e desatino. Mas não chego. E se chegar, de que vale, se há sempre um além maior que a vida que te foi dada?
Eu estou viva, ela já não. Só nisto sou maior do que ela. Uma grandeza temporária e sem mérito algum e, todavia, fundamental. Ela está morta, eu ainda não.
Surpreendo-me. Porque tu soubeste a morte do jeito que poucos sabem e ainda assim. Morreste e és nada. Que é da alma que dizias não poder conter? Alma: como te deixas vencer por um pedaço de corpo apodrecido?

"A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo."
Luís Miguel Nava

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011


Os dedos que seguram o livro estão gelados. Leio e não entendo, mas leio. Porque há nestas palavras que os meus olhos recolhem com gula uma toada encantatória onde se reconhece a minha loucura. Não posso forçar o entendimento, a inteligência ou a sensibilidade, mas enxergo com uma clareza fria os espaços vazios naquilo que sou. Olho a direito com olhos que não sossegam e se remordem na certeza de que mais acima há um céu de azul e prata. O que me distingue não é o que sou, antes a vontade de ser. E nesta vontade, bravia, selvagem, indómita, me faço Rainha.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de ser ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mais - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.