domingo, 6 de fevereiro de 2011
Está frio e abotoar o casaco é um gesto inútil. A respiração condensa-se numa nuvem branca que mais parece o fumo do cigarro que nunca fumei. Movo as pernas e a pomba, que me tomou como estátua sem vida, bate as asas esbaforida, num arrulho de indignação.
Não gosto da rodoviária. Parece ainda mais suja e triste no Inverno. E aqui espero pelo autocarro que há-de sempre tardar mais um pouco.
Uma senhora aproxima-se e pede que lhe indique a casa de banho. Daí a instantes, uma outra senhora se me dirige e pede a mesma indicação. Perguntassem-me outros caminhos ou direcções e talvez não soubesse responder.
Todas as semanas, neste terminal, uma cigana coxa se passeia entre os que esperam oferecendo estampas de santos em troca de uma moeda. As pessoas recusam e viram costas, ela fala entre os dentes, rogando pragas.
Quando me levanto, uma rapariga da minha idade passa por mim. Investe contra mim com um olhar frio. Mulheres que se cruzam e se olham com animosidade.
No autocarro, sentar-se-á uma velhinha a meu lado e contar-me-á a história da sua vida. Não lhe direi que já escutei uma história igual e deixarei que o coração se me encha de ternura. Uma vez mais.
Afinal, não se sentou ninguém a meu lado. Uma senhora olhou-me com estranheza quando me sentei e comecei a rascunhar isto que agora lês. Sorri-lhe e ela pareceu sossegar, perdoando-me a discreta excentricidade.
Vi dois cavalos, um campo de saramagos e uma ponte de pedra, mas hoje, nada parece assanhar a minha sensibilidade embotada.
Escrevo de rajada sobre coisa nenhuma. Uma porção de tempo sem ressonância no que sou ou construo. Quantos pedaços de coisa nenhuma numa vida.
Quando chegar à outra cidade, estará a chover. Não sabia, nunca ouço a meteorologia.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
IX
"meu silêncio fora silêncio ou uma voz alta que é muda?"
Clarice Lispector
Embora senhora de idade provecta, era muito bela. Dizê-lo assim, à distância dos anos, no alto da minha juventude, parece talvez uma concessão, uma gentileza. Não sei se é.
Lembro-me de um dia, da estranheza de tudo o que vi e senti. Se eu quisesse escrever as minhas memórias de criança, elas seriam vislumbres desordeiros, avançando e recuando numa linha temporal que não consegui conservar. São retratos a sépia sem data, com um ou outro adorno involuntário, porque a infância é sempre um tempo de saudade, que todos gostamos de engalanar, acrescentando ao que é baço um ou outro reflexo de oiro.
Digo-vos isto porque ainda a criança entrará de visita. Mais tarde. Não hoje. Hoje cresci.
Como me é difícil contar. O novelo das palavras não se desfaz e as linhas enredam-se confusamente. Um atropelo de nós num bordado imperfeito. Mas retomando.
Nesse dia, a senhora recebeu-me com o rosto crispado do desassossego que escondia dentro. Porque o silêncio é o eco do grito aprisionado. Esse dia foi o único em que a vi assim fraca, assim vergada. E vi a dimensão de um desespero que ela aprendera a disciplinar, num silêncio correcto, que deixava o segredo lá longe.
Vestia um vestido de baile, que lhe assentava ridiculamente no corpo envelhecido. Mas não foi isto que pensei e o que vi, nas folgas do vestido que cobria o corpo emagrecido, foi dor. Agarrou-me a mão e conduziu-me até ao quarto onde nunca tinha entrado. Sentou-me diante do toucador e retirou de um guarda jóias um conjunto de pérolas, o mesmo que talvez tivesse usado com o vestido, numa noite em que desceu as escadas de um salão pelo braço galante de um príncipe. Colocou-me os brincos e depois segurei o cabelo para que apertasse o colar. Eu rodei o corpo no banquinho e voltei-me de frente para a senhora. E assim ficámos longo tempo.
Ela, olhando-me, olhava-se, ressuscitando a juventude morta. E eu, olhando-a, via também. Uma alma com requebros de menina, atolada num corpo de velha. Doeu-me a descoberta de que até o rosto que é meu não é meu, um empréstimo somente.
(um pedido de desculpa pela ausência... exames ainda)
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Ela trazia amor nas suas mãos
Ruy Belo
Conheces a história? É ela uma busca. Um leão que procura a coragem e a valentia que não possui, um espantalho que deseja dois dedos de inteligência e um homem de latão que sonha com um coração vermelho e quente no peito metálico e frio.
E a menina de cabelo entrançado, vestido azul e sapatinho escarlate que vai calcorreando a estrada, buscando o regresso.
Lembras-te da história? Está no livro de letras gordas e frases curtas da tua infância. Ainda lá está.
Comprei um destes dias umas sabrinas vermelhas parecidas com aquelas que as irmãs chineleiras costuravam para mim e que me deixavam o coração iluminado de uma vaidade feliz.
O tempo em que era ainda mais menina.
Quando as calçar, ninguém saberá que sou também uma Doroteia de coração fendido buscando o regresso ao que não sei.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Dentro, onde ela está, há a janela recortada contra o escuro e é essa a noite. Mas fora é noite também. Noite deles, vagabundos, viciados, poetas malditos. Noite, correndo livre, dispersando-se por ruas e becos, aspergindo-se sobre os pobres sem rosto que vestem de negro e espreitam das sombras. Mas dentro é noite também. Noite refém, correndo em círculos, mas noite também. Diferente, mas noite.
Há dentro o candeeiro e a luz amarela, morna, tingida. Luz baça, que a luz muito branca fere como ácido. Há sombras que se projectam nas paredes. A sombra mais nítida é o desenho do seu corpo decalcado na parede. Deitada, volta-se para a parede e é como se olhasse a sua sombra nos olhos. Mas a sombra não tem olhos, é apenas o contorno dos vales e fundos do seu corpo. A curva da fronte, as pestanas, a linha das maçãs do rosto que se movimenta se ela forçar um sorriso, o contorno dos lábios, a depressão do pescoço e os ombros que respiram e fazem desta uma sombra viva, uma sombra que ri. O traço continua-se ondulante, corpo deformado pelas cobertas que aquecem e encobrem.
Se desligar a luz, a sombra morre. Morrem as cores, morrem as formas. Abre e fecha os olhos e a escuridão é quase a mesma. Não há hoje lua sinaleira que suavize o escuro, essa mancha de negro que os olhos enxergam porque nada enxergam.
Vai tenteando o escuro e liga de novo o interruptor. Da lâmpada nasce a luz. Nesse momento, decide que há-de adormecer sem querer, assim como quem se distrai e pronto. E a luz acesa há-de ser metade culpa, metade esquecimento.
A luz fere de morte o negro, mas não o silêncio. Silêncio. Quanto silêncio. Silêncio tão calado que grita e lhe zumbe aos ouvidos como um peso. Silêncio. Tanto silêncio. Ouve a pele deslizando sobre a pele, é o seu corpo falando baixinho. A madeira da cama range, dedo em riste acusando o corpo inquieto, desassossegado.
Noite é o escuro, o naco de silêncio e a solidão. Mas é isto a solidão? Aqui se veste o segredo e a intimidade, às vezes a dor do abraço ausente. Mas sempre a certeza, quando vem a solidão mais fria, está, tantas e tantas vezes, alguém sentado a seu lado.
- O que se consegue quando se fica feliz?, a sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
- Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
- Ser feliz é para se conseguir o quê?
Clarice Lispector
Beijo
Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.
Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.
Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.
Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Esta é a história da menina que vivia fazendo bolas de sabão. Soprava levemente, pois que a delicadeza era o segredo deste talento, e da argola nascia uma bola que crescia e crescia e logo se recortava e voava ali ao perto. Bolas de sabão que eram como pedaços de magia. Ou borboletas encantadas que voavam em seu redor enquanto ela abria os braços, fechava os olhos com força e fazia girar o corpo louco até se sentir tonta de alegria. Acabava por cair de joelhos no chão e esfregava com as mãos a terra no rosto, porque tudo é sensação.
Esta é a história da menina que vivia fazendo bolas de sabão e, um dia, a verdadeira magia aconteceu. As pequenas bolas de sabão eram muito frágeis, isto a menina já tinha aprendido. Estalavam de susto se embatiam em qualquer superfície dura da realidade; rendiam-se ao vento agastado que lhes gritava que saíssem do caminho. Bolas de sabão eram magia e magia não tem lugar neste mundo, mas a menina acreditava que um dia uma dessas bolas de sabão teria a força necessária para chegar aos céus. E por isso perseverava e perseverava e às tantas já se esquecia da bola de sabão que haveria de voar bem longe, mas perseverava…
No dia em que descobriu a tristeza, saiu-lhe do peito um suspiro interminável, o último sopro da infância, e com ele nasceu uma bola de sabão tão grande, mas tão grande, que mais parecia um mundo. E a menina subiu no ar envolta nesse mundo de sabão que criara. Quando chegou ao céu era de noite. A noite é o escuro, as estrelas e o luar. Pensou em levar consigo a lua quando regressasse, mas sabia, já então, que nunca teria braços para abraçar uma lua tão grande, além de que, por muito distraídas que andassem as pessoas, decerto notariam o furto… Não, o lugar da lua era aquele, de tal forma que nunca pudesse ser olhada de frente, para olhar a lua é preciso alçar a vista, erguer a alma.
Pensou então em levar uma estrela, talvez presa entre os cachos do cabelo, talvez escondida na algibeira. Ninguém repararia e para ela seria tão importante. Escolheu a única estrela de cinco pontas que havia nas redondezas. Mas quando pegou com as mãozitas o seu astro, percebeu que não podia deixar esse recanto do céu ainda mais escuro e foi então que lhe ocorreu. Levaria a estrela e colocá-la-ia ao peito, deixando em seu lugar o coração que doía.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
VIII

A Lady playing the piano
Carl Vilhelm Holsoe
(Aquela senhora na paragem de autocarro. Perguntaste-me o que tinha ela da viscondessa. O cabelo, respondi, duvidosa. Mas não, o cabelo da viscondessa é mais branco e mais comprido, embora raramente lho visto solto, ela usava-o preso num entrançado bonito.
Perguntaste-me se a concebia numa paragem, à espera de um autocarro. Perguntaste-me se o pai da senhora era homem que fumasse cigarrilhas. E eu não soube que responder, que nunca tinha pensado nisso.
Como explicar-te que não sei, que a personagem não é minha e que sou narradora de uma história que desconheço e que vou tecendo com palavras rotas de sentido?)
Um dia não me apeteceu ler, nem sequer aqueles livros que às vezes folheava distraidamente e que se compunham de gravuras de cidades que eu visitaria um dia, porque tinha decidido que veria o mundo inteiro, eu, que tinha o futuro como o meu mais precioso haver. E a distância? A distância era tão pequena, pois se o sonho dava passadas tão largas que eu mal o conseguia acompanhar.
Mas não me apeteceu ler e fui pôr-me à janela, olhando o fora. Estava de costas para a sala e foi assim que a música me surpreendeu. Não me voltei até ao momento em que se suspendeu, tão repentinamente como tinha começado. Foi esta a única vez que ouvi a senhora tocar. O bonito piano de cauda não era, afinal, um mero adorno, era um sonho insuspeitado, que ela assim me revelava. Talvez gostasse de tocar mais vezes, mas as mãos tremiam-lhe e certamente lhe doía escutar as notas vacilantes de um sonho envelhecido.
Não foi alegria. Não foi tristeza. Foi como se a alma tivesse crescido mais um palmo e não me coubesse no corpo. E a alma crescia e crescia e crescia e, a dada altura, já os olhos choravam a alma que não cabia.
Dedos de pianista ou cirurgiã, disse-me um dia a velha senhora. Mas eu já sabia que a música entraria em mim, mas nunca de lá sairia pelos dedos esguios; só pelos olhos, quando vertesse lágrimas, como quem chora canções.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010

Usava o cabelo cortado rente e vestia-se com um desleixo que lhe assentava muito bem. As calças de ganga um pouco gastas. As botas castanhas que, nos passos de uma menina que vivia calcorreando ruas, há muito conheciam a cidade. Os camisolões que lhe disfarçavam o corpo magro. O impermeável de capuz vermelho que lhe permitia dispensar o guarda-chuva. A mala roçada que usava a tiracolo e onde guardava o caderno Moleskine e a velha máquina fotográfica, que sempre a acompanhavam.
Era bonita, muito embora olhasse a vaidade lá do alto, votando-a ao desprezo. Tinha olhos grandes no rosto miúdo, olhos que pareciam abertos de fome para o mundo. O corpo magro. As mãos frias, que o ditado diz que existem em troca de um coração quente.
Nos autocarros sentava-se nos bancos que ficavam de costas para o condutor e que a maioria das pessoas rejeitava, porque fomos feitos para nos sentarmos de frente. Às vezes, era a única pessoa no autocarro sentada nessa posição e podia olhar de frente todos os outros passageiros. E era disso que ela gostava. De escutar conversas alheias. De tropeçar em momentos. De sentir emoções no espelho dos rostos. De adivinhar vidas. De criar histórias. Às vezes, mendigava afectos, olhando estranhos fundo nos olhos e pedindo-lhes em silêncio que lhe lessem a alma desnuda. A maior parte das vezes, porém, amava a sua solidão.
Sentada num banco de jardim, ela não falava de si, mas escutava a vidas das pessoas que se sentavam ao seu lado. Às tantas, já confundia rostos e histórias. Velhinhas passavam-lhe para as mãos retratos a sépia do marido morto ou imagens de belas jovens encostadas ao capô do carro com a saia adejando ao vento e um sorriso pleno de futuro no rosto. Havia às vezes as lágrimas que ela recolhia na concha das mãos, quase como Blimunda, que recolhia as vontades que fariam voar um dia a passarola. E afinal, que são lágrimas, senão vontades desfeitas?
Vivia no sótão de um prédio antigo numa zona triste da cidade. Um espaço exíguo, um tanto atulhado. Um espaço cunhado de simplicidade e despojamento, a não ser aquela secretária colocada diante de uma janela. Uma secretária linda onde estava pousada uma máquina de escrever que adquirira numa loja de antiguidades quando se perdeu nas ruelas de uma cidade. Um mero adorno, porque ela escrevia à mão, com uma caneta Montblanc. Porque ela escrevia e era este o seu luxo, o seu capricho.
Às vezes, ficava muito triste, mas logo se lembrava que tinha as palavras. Sentava-se à secretária e, esquecida dos prédios cinzentos que adornavam a paisagem, escrevia. Gostava de pensar que a sua janela tinha vista para a Lua. Essa Lua que talvez um dia tivesse nos braços.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
VII
A senhora era a mais nova de onze irmãos, quase todos já mortos. Foi criança em casa abastada, onde os criados a tratavam por menina. A mãe era uma figura pequenina de saúde delicada. O pai era o senhor sério que a senhora, nessa altura menina apenas, tratava com respeito, dirigindo-se-lhe quase a medo:
- A sua bênção, senhor meu pai.
- Deus te abençoe, minha filha.
Chegada a idade, partiu para Coimbra e aí estudou durante dois anos ciências farmacêuticas. Não chegou a terminar o curso, os livros enfastiavam-na e havia nela uma pressa de viver que não a deixava sossegar.
Foi hospedeira de bordo e guia turística nas terras do além mundo. Fez a mesma rota vezes sem conta.
Um dia, volvidos muitos anos, regressou à aldeia que a viu nascer. Instalou-se na casa grande, sem marido, sem filhos e por lá ficou, soberana na sua reclusão.
Dos amores, dos desvarios, das agruras nada se sabe. A senhora regressou vestida de silêncio.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
VI
Antes do regresso a casa, havia ainda o lanche com a senhora. E agora que penso nisso, é possível que, desde o início, ela não se limitasse a receber-me, talvez me aguardasse até. Porque na mesa, para além do requinte servido em loiça de porcelana, havia sempre fatias de bolo, biscoitos de canela, bombons embrulhados em quadradinhos de papel colorido…
A senhora pouco comia. Bebericava uma chávena de chá e debicava a bolachinha. O costume. Já eu comia com a vontade própria das crianças, mas tendo sempre cuidado para não manchar a toalha de linho rendada que cobria a mesa. Não falávamos. Ela olhava-me placidamente e eu, nesses momentos, degustando o quadradinho de chocolate na minha boca gulosa, era mais criança do que nunca.
A senhora sentava-se muito rígida na sua cadeira e havia nos seus modos tanta correcção e aprumo. Aprendi a sentar-me direita, sem me apoiar no espaldar da cadeira e, quando cresci mais um pedaço e consegui finalmente tocar com os pés o chão, aprendi a cruzá-los com delicadeza.
Lá fora, eu corria descalça pelos campos, o cabelo em desalinho, o rosto afogueado e os joelhos tantas vezes esfolados dos descuidos. Lá dentro, porém, eu era uma senhorinha.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
V
Às vezes, raras vezes, a senhora falava. Não falava comigo, mas falaria para mim? Eu escutava de costas voltadas e fechava os olhos às chamas que enlouqueciam na velha lareira de pedra. E sentia a intensidade do calor queimando-me o rosto e nem assim eu abria o olhar à violência das chamas. Uma voz rouca de desuso, que logo se abria em claridade. E como era bela essa voz saída do silêncio, do dentro, do lugar das palavras coroadas.
Falava de lugares, nunca de pessoas. Mas falava dos lugares como se falasse de pessoas. Dos amores que levaram consigo o calor do abraço e deixaram apenas memórias, cinzas, restos de sonho que pouco aquecem os dias na idade da morte. Deles não me falou. Mas falava dos lugares do mundo com o mesmo ardor de quem recorda uma noite de amor numa Paris chuvosa, lá fora lampiões brilhando e bêbados sorvendo a noite em largos tragos. Só mais tarde o pensei. Muito mais tarde, quando descobri que, depois de tudo, tanto ou tão-pouco, fazemos das pessoas o nosso lugar no mundo. Mas a senhora não me deu o tempo de crescer e questionar e hoje eu não sei o porquê. Talvez lhe doesse a humanidade…
Terminava suavemente e o silêncio que se seguia era ainda uma palavra na sua história. E quando finalmente abria os olhos, a senhora já não estava na sala. Só eu e as chamas de um lume agora mais brando.
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