Está frio e abotoar o casaco é um gesto inútil. A respiração condensa-se numa nuvem branca que mais parece o fumo do cigarro que nunca fumei. Movo as pernas e a pomba, que me tomou como estátua sem vida, bate as asas esbaforida, num arrulho de indignação.
Não gosto da rodoviária. Parece ainda mais suja e triste no Inverno. E aqui espero pelo autocarro que há-de sempre tardar mais um pouco.
Uma senhora aproxima-se e pede que lhe indique a casa de banho. Daí a instantes, uma outra senhora se me dirige e pede a mesma indicação. Perguntassem-me outros caminhos ou direcções e talvez não soubesse responder.
Todas as semanas, neste terminal, uma cigana coxa se passeia entre os que esperam oferecendo estampas de santos em troca de uma moeda. As pessoas recusam e viram costas, ela fala entre os dentes, rogando pragas.
Quando me levanto, uma rapariga da minha idade passa por mim. Investe contra mim com um olhar frio. Mulheres que se cruzam e se olham com animosidade.
No autocarro, sentar-se-á uma velhinha a meu lado e contar-me-á a história da sua vida. Não lhe direi que já escutei uma história igual e deixarei que o coração se me encha de ternura. Uma vez mais.
Afinal, não se sentou ninguém a meu lado. Uma senhora olhou-me com estranheza quando me sentei e comecei a rascunhar isto que agora lês. Sorri-lhe e ela pareceu sossegar, perdoando-me a discreta excentricidade.
Vi dois cavalos, um campo de saramagos e uma ponte de pedra, mas hoje, nada parece assanhar a minha sensibilidade embotada.
Escrevo de rajada sobre coisa nenhuma. Uma porção de tempo sem ressonância no que sou ou construo. Quantos pedaços de coisa nenhuma numa vida.
Quando chegar à outra cidade, estará a chover. Não sabia, nunca ouço a meteorologia.
