sábado, 20 de novembro de 2010

VI

Antes do regresso a casa, havia ainda o lanche com a senhora. E agora que penso nisso, é possível que, desde o início, ela não se limitasse a receber-me, talvez me aguardasse até. Porque na mesa, para além do requinte servido em loiça de porcelana, havia sempre fatias de bolo, biscoitos de canela, bombons embrulhados em quadradinhos de papel colorido…
A senhora pouco comia. Bebericava uma chávena de chá e debicava a bolachinha. O costume. Já eu comia com a vontade própria das crianças, mas tendo sempre cuidado para não manchar a toalha de linho rendada que cobria a mesa. Não falávamos. Ela olhava-me placidamente e eu, nesses momentos, degustando o quadradinho de chocolate na minha boca gulosa, era mais criança do que nunca.
A senhora sentava-se muito rígida na sua cadeira e havia nos seus modos tanta correcção e aprumo. Aprendi a sentar-me direita, sem me apoiar no espaldar da cadeira e, quando cresci mais um pedaço e consegui finalmente tocar com os pés o chão, aprendi a cruzá-los com delicadeza.
Lá fora, eu corria descalça pelos campos, o cabelo em desalinho, o rosto afogueado e os joelhos tantas vezes esfolados dos descuidos. Lá dentro, porém, eu era uma senhorinha.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

V

Às vezes, raras vezes, a senhora falava. Não falava comigo, mas falaria para mim? Eu escutava de costas voltadas e fechava os olhos às chamas que enlouqueciam na velha lareira de pedra. E sentia a intensidade do calor queimando-me o rosto e nem assim eu abria o olhar à violência das chamas. Uma voz rouca de desuso, que logo se abria em claridade. E como era bela essa voz saída do silêncio, do dentro, do lugar das palavras coroadas.
Falava de lugares, nunca de pessoas. Mas falava dos lugares como se falasse de pessoas. Dos amores que levaram consigo o calor do abraço e deixaram apenas memórias, cinzas, restos de sonho que pouco aquecem os dias na idade da morte. Deles não me falou. Mas falava dos lugares do mundo com o mesmo ardor de quem recorda uma noite de amor numa Paris chuvosa, lá fora lampiões brilhando e bêbados sorvendo a noite em largos tragos. Só mais tarde o pensei. Muito mais tarde, quando descobri que, depois de tudo, tanto ou tão-pouco, fazemos das pessoas o nosso lugar no mundo. Mas a senhora não me deu o tempo de crescer e questionar e hoje eu não sei o porquê. Talvez lhe doesse a humanidade…
Terminava suavemente e o silêncio que se seguia era ainda uma palavra na sua história. E quando finalmente abria os olhos, a senhora já não estava na sala. Só eu e as chamas de um lume agora mais brando.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

IV

E foi assim que a visita à senhora passou a fazer parte da minha rotina. Eu aparecia e ela recebia-me. Sem excesso de cortesia ou familiaridade. Nunca percebi se me esperava ou se, pelo contrário, se lembrava de mim apenas quando escutava o batente soando pela mão da minha criança.
Passávamos as tardes na biblioteca. A senhora sentada na sua velha poltrona e eu num sofá ou no chão, quando queria ficar mais perto do lume. Não falava muito. Tantas as tardes em que não trocáramos palavra. Eu lia e ela olhava. Às vezes olhava-me. Eu sei, porque sentia um leve peso na nuca. Ternura. Curiosidade. Rancor. Sim, estou em crer que houve momentos de rancor liquefeito no seu olhar. Mas nunca, nem nesses pretensos momentos, me senti intrusa naquela casa. Nunca.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

III

A casa era magnífica. Tinha a beleza arquitectónica que nenhuma obra moderna poderá alguma vez imitar, porque o seu grande atributo é a idade. É a beleza da pedra gasta. Da hera que lhe cobria metade do rosto de cantaria. Das janelas de guilhotina. Do ferro forjado dos varandins. De tudo o que eu não sei dizer porque não conheço as palavras.
Por dentro, os móveis de pau-santo, as tapeçarias que cobriam o soalho que tantas vezes rangia de cansaço, os lustres, os espelhos, as molduras, os dosséis e o piano, o piano de cauda que era a peça mais bonita de toda a casa. E tudo o que não sei dizer porque não conheço as palavras.
E as rosas, já me esqueciam as rosas… Sim, a senhora apreciava muito as suas rosas.

II

O tempo passou. Nestas três brevíssimas palavras, assenta o resumo de dias e dias da minha vida. Sempre me fascina. Gerações de vidas cabem num livro. É só isto a vida, afinal? O tempo passou e eu passando com ele. Mas devagar. Sim, nesta altura o tempo era ainda vagaroso. Hoje é o contrário. Hoje tem pressa e eu não.
A senhora não era vista na aldeia. Pouco saía. Era a Lucinda quem cuidava dos avios da casa. A Lucinda, minha vizinha que, em palavras desajeitadas, lá ia contando histórias do velho palacete, de como eram belos os jardins, e longos os corredores, e finas as louças, e muitos os quartos. Sempre muito empertigada, zelosa da sua função de zeladora.
Quando eu passava junto da casa da viscondessa, eu olhava e tornava a olhar, com o descaramento da minha mente inquieta. E um dia, depois de muitos, a senhora convidou-me a entrar.

I

Chamavam-lhe viscondessa e o seu nome não importa, estou em crer que poucos o saberão. Lá, na aldeia, aquela era a senhora viscondessa, última representante de uma nobreza rural há muito esgotada. Sempre fechada entre paredes, soberana na sua reclusão.
Muito antes do dia em que me convidou a entrar. Foi essa a primeira vez que lhe vi o rosto. Num dia de festa na aldeia. Eu usava um vestido de veludo cor de esmeralda e calçava sapatinhos de verniz preto. Porque era dia de festa. Caminhava pela mão de minha mãe, muito cheia da vaidade de estrear um vestido novo e cuidando para que as pedras, feitas de arestas e rugosidades, não maculassem os meus sapatinhos, que não eram de cristal, mas de verniz, que é quase a mesma coisa e, mesmo não sendo, a gente faz de conta, só pelo gosto de ver a criança feliz.
Dia de festa. Minha mãe troca com a senhora palavras de circunstância. Eu fito-a com uma insistência desusada e ela sorri. E foi espanto de alma calada, porque aquela velha senhora era tão bonita. E ainda olho de soslaio os sapatinhos de brilho e o vestido feito de maciez, e apercebo-me que a beleza, naquele recorte de tempo, naquele instante, estava também para além de mim, muito embora eu fosse uma menina que estreava um vestido.