segunda-feira, 15 de novembro de 2010

IV

E foi assim que a visita à senhora passou a fazer parte da minha rotina. Eu aparecia e ela recebia-me. Sem excesso de cortesia ou familiaridade. Nunca percebi se me esperava ou se, pelo contrário, se lembrava de mim apenas quando escutava o batente soando pela mão da minha criança.
Passávamos as tardes na biblioteca. A senhora sentada na sua velha poltrona e eu num sofá ou no chão, quando queria ficar mais perto do lume. Não falava muito. Tantas as tardes em que não trocáramos palavra. Eu lia e ela olhava. Às vezes olhava-me. Eu sei, porque sentia um leve peso na nuca. Ternura. Curiosidade. Rancor. Sim, estou em crer que houve momentos de rancor liquefeito no seu olhar. Mas nunca, nem nesses pretensos momentos, me senti intrusa naquela casa. Nunca.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

III

A casa era magnífica. Tinha a beleza arquitectónica que nenhuma obra moderna poderá alguma vez imitar, porque o seu grande atributo é a idade. É a beleza da pedra gasta. Da hera que lhe cobria metade do rosto de cantaria. Das janelas de guilhotina. Do ferro forjado dos varandins. De tudo o que eu não sei dizer porque não conheço as palavras.
Por dentro, os móveis de pau-santo, as tapeçarias que cobriam o soalho que tantas vezes rangia de cansaço, os lustres, os espelhos, as molduras, os dosséis e o piano, o piano de cauda que era a peça mais bonita de toda a casa. E tudo o que não sei dizer porque não conheço as palavras.
E as rosas, já me esqueciam as rosas… Sim, a senhora apreciava muito as suas rosas.

II

O tempo passou. Nestas três brevíssimas palavras, assenta o resumo de dias e dias da minha vida. Sempre me fascina. Gerações de vidas cabem num livro. É só isto a vida, afinal? O tempo passou e eu passando com ele. Mas devagar. Sim, nesta altura o tempo era ainda vagaroso. Hoje é o contrário. Hoje tem pressa e eu não.
A senhora não era vista na aldeia. Pouco saía. Era a Lucinda quem cuidava dos avios da casa. A Lucinda, minha vizinha que, em palavras desajeitadas, lá ia contando histórias do velho palacete, de como eram belos os jardins, e longos os corredores, e finas as louças, e muitos os quartos. Sempre muito empertigada, zelosa da sua função de zeladora.
Quando eu passava junto da casa da viscondessa, eu olhava e tornava a olhar, com o descaramento da minha mente inquieta. E um dia, depois de muitos, a senhora convidou-me a entrar.

I

Chamavam-lhe viscondessa e o seu nome não importa, estou em crer que poucos o saberão. Lá, na aldeia, aquela era a senhora viscondessa, última representante de uma nobreza rural há muito esgotada. Sempre fechada entre paredes, soberana na sua reclusão.
Muito antes do dia em que me convidou a entrar. Foi essa a primeira vez que lhe vi o rosto. Num dia de festa na aldeia. Eu usava um vestido de veludo cor de esmeralda e calçava sapatinhos de verniz preto. Porque era dia de festa. Caminhava pela mão de minha mãe, muito cheia da vaidade de estrear um vestido novo e cuidando para que as pedras, feitas de arestas e rugosidades, não maculassem os meus sapatinhos, que não eram de cristal, mas de verniz, que é quase a mesma coisa e, mesmo não sendo, a gente faz de conta, só pelo gosto de ver a criança feliz.
Dia de festa. Minha mãe troca com a senhora palavras de circunstância. Eu fito-a com uma insistência desusada e ela sorri. E foi espanto de alma calada, porque aquela velha senhora era tão bonita. E ainda olho de soslaio os sapatinhos de brilho e o vestido feito de maciez, e apercebo-me que a beleza, naquele recorte de tempo, naquele instante, estava também para além de mim, muito embora eu fosse uma menina que estreava um vestido.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Chamava-se Escritor, pois era um fazedor de palavras. Tinha em si o dom mais bonito do mundo e vivia escrevendo livros. Livros que muitas pessoas liam, tantas pessoas, livros exibidos em expositores em grandes livrarias, livros que a menina lia com sofreguidão no recato anónimo do seu quarto.
Quando leu os livros do Escritor, ela compreendeu. Cada palavra, cada contexto, cada sentimento, cada ênfase. Mas o pensamento não falou exactamente assim, e o que soou foi que tinha sido compreendida. Um revés de sentido, que a coloca a ela no centro do mundo.
Mas tantos o lêem. Talvez ela esteja enganada e o milagre da compreensão não seja tão raro assim.
Um dia, ela soube que o Escritor estaria na cidade. Sentiu curiosidade, não muita, mas o suficiente. Pois bem, faria por estar presente. Apanhou o autocarro para a tal cidade e caminhou por longo tempo até encontrar a livraria. Enquanto caminhava, procurava sinais. O que esperaria encontrar? Uma cidade engalanada para receber o Escritor? A cidade estava igual ao que sempre fora, só nos seus olhos havia um brilhozinho de expectativa comedida.
A menina não falou com o Escritor. Entrou na livraria e voltou atrás. Às vezes desilude-se com as coisas e, pelo sim pelo não, não valia a pena arriscar. Teve medo de descobrir que, no fim de contas, todos fingem, todos mentem. Até o artista, que vive a arte a intervalos.
O que escreve o Escritor é tremendo. Como um dedo esticado que toca por acaso um coração ferido. Dói, mas acorda o grito e traz a vida.
Ele é o Escritor. A menina de que vos falo uma leitora, que sonha em segredo que um dia lhe chamem o mesmo nome também. É só um sonho. É tudo este sonho.
Nasceram sob o signo do mesmo amor. A ele não lhe faltam palavras, enquanto ela parece ser dona de um destino calado e silente. Por um dom como aquele, ela venderia a alma e seria tão pouco.
Não sabe escrever amor, mas sabe senti-lo e tem em si o orgulho indecente de acreditar que ninguém ama mais do que ela. As palavras.




... Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector