terça-feira, 26 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010



A noite é o lugar dos chacais. Desde sempre o soube. Mais do que saber, pressenti, pressinto. Amor e morte, os saberes pressentidos mais vívidos do meu lugar de dentro. Amor e morte, caminhando de mãos enlaçadas pela vida humana, numa intimidade que arrepia.
Adormeci com a chuva escorrendo ruidosa pela janela. Queria que soubesses como a chuva me entra coração adentro num sossego franzido de inquietação. Queria que soubesses tanta coisa, mas tardas em mostrar-me o rosto. A chuva é a solidão molhando o mundo, mas sei, pressinto, que é também o abraço mais terno numa noite de Inverno. A chuva lá fora fustigando velhas telhas e beirais e recordando o frio que não há, porque o amor é um calor prazeroso e aconchegante.
Mas também a solidão pode ser perfeita em momentos. Há pouco, quando encostei a cabeça para dormir, sabia que podia abrir o caderno de capa gasta e escrever. Há na vida sentires perfeitos, há no mundo chuvas de beleza irrepreensível, capazes de calar a dúvida incerta do talento mais inepto. Com a monção, não deixarão de vir embaladas em água. Oh sim, eu podia ter escrito palavras, mas a preguiça tolheu-me a intenção. Eu podia ter escrito palavras muito belas, mas antes assim, pois que, escrevendo-as, talvez me visse a braços com a frustração. Antes o paradoxo de sonhar o sonho.
Adormeci, mas o breu entrou-me no sono abandonado e eu sonhei com a palavra escura que às vezes tenho medo de dizer. E acordei com o coração desgraçado de terror sem lágrimas e abri muito os olhos para não dormir outra vez. E aqui estou, meneando a cabeça de sono, e escrevendo as palavras, não sei se as tais de que fugi se outras, escrevendo o que amanhã me parecerá, porventura, estranho e longe.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Quase amor


Klimt


Então é assim que o amor acaba? Num breve olhar assombrado.
Eles fitam-se através de metros de gente, carros, ruídos da via pública. Fitam-se num instante que dura uma eternidade, pois o tempo faz-se de mentiras. Instantes suspensos na eternidade dos afectos, mas também a brevidade das eternidades prometidas.
Um dia, foram amantes. Nessa vida que passou, um dia era o futuro, hoje é a tristeza de uma obra imperfeita. E aqui, a prova evidente de que tudo pode ser o que é e o seu contrário. Um dia será. Um dia foi.
Amantes: a palavra que soa como segredos partilhados na calada da noite. A palavra que soa baixinho, como murmúrio de amor. Foram amantes. Nos dedos que se enlaçaram. Nos olhares que se fitaram. Nos lábios que se tocaram, rubros de desejo. Foram amantes que hoje se olham como estranhos numa história de quase amor.
“Terás esquecido as sílabas do meu nome?”. Ela sente um resquício de dor e surpreende-se, pois o que vem sentindo há dias é indiferença. Talvez uma lágrima cansada. Ainda. Se vier, calá-la-á.
“Tinhas medo que os teus dedos gelassem se tocassem o meu coração frio? Cobarde. Nunca saberás sequer que te traíste.” Ele viu lágrimas nos olhos tristes da menina branca. Lágrimas que a boca dele não bebeu e ela soube como podem ser frias as lágrimas que molham o rosto. E o amor morreu.
“Não te amei, escolhi amar-te.” Ela não o amou, escolheu amá-lo. Pediu-lhe que lhe ensinasse o amor e aprendeu o quase amor, feito de perda e desencanto.
Para eles, o amanhã será jamais. Para eles, o nunca será a derradeira eternidade.



E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste. E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter. Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem principio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre."

Não te deixarei morrer, David Crocket

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


Klimt


A menina nasceu num dia medonho, de chuva e vendaval. Gostaria de dizer-lhes que, à hora da sua vinda, os céus se abriram num interlúdio de luz, mas assim não foi, e os céus permaneceram mudos e indiferentes à sua chegada. A menina nasceu vestida de branco e trouxe o seu nome consigo.
- Sê bem-vinda, Clara, minha bem-amada.
Uma voz envelhecida adorna de magia o nascimento de uma criança entre tantas, num dia perfeitamente vulgar, no hospital da cidade. Clara é a sua neta e a avó sabe que a magia não tem forçosamente de existir, pode inventar-se.
A menina ouve com olhos abertos de espanto, o rosto iluminado pelas chamas bruxuleantes nascidas de meia dúzia de toros assentes na lareira de mármore. A menina ouve e parece não entender que a Clara de que falam é ela própria, reflectida nos olhos meigos e embaciados da anciã. E dá por si a desejar que o seu nome soasse exactamente assim, um sussurro de magia lançado ao vento.
Chamava-se Branca de Neve, porque era de alabastro a sua pele, de azeviche o seu cabelo e os lábios eram duas pétalas da rosa vermelha mais fresca e bela. Como pérolas de sangue em neve branca e imaculada.
- Oh Clara, teria com certeza o teu rosto!
Era mentira. O seu cabelo era escuro, mas decididamente castanho, a pele não era branca, tinha a cor da pele ora essa!, e os lábios eram rosados e não vermelhos. Hoje sabe que é o amor que nos adorna as feições aos olhos alheios. Teria preferido ser a Bela, com a sua devoção pelos livros, ou mesmo a Cinderela, mas talvez os sapatos de verniz preto que usava com vestidos de veludo não pudessem substituir os outros, de cristal. Sapatos de cristal! Talvez não lhe servissem de muito no seu dia-a-dia de criança, mas podia ser que o príncipe não se importasse de dançar a valsa da meia-noite com uma menina descalça, que subia às árvores e esfolava os joelhos.
Tem saudades da avó, de passar as mãos sobre o seu rosto enrugado, dos olhos de um azul líquido, como dois berlindes.
Lembra-se das noites em que se sentava sobre a cama branca, diante de um grande espelho e a avó lhe penteava o longo cabelo. Não há ternura maior do que essa. Vestia uma camisa de noite, branca e comprida e olhava as bonecas de beleza irrepreensível e pele de porcelana, frágil, muito direitas no seu suporte. E quando se deitava na cama branca, ficava por tempos infindos olhando o tecto à espera que chegassem. E levantava-se e abria a janela, para que pudessem entrar. Como se o menino que viria voando da Terra do Nunca ou o coelho que a conduziria ao País das Maravilhas, entre tantos absurdos de magia, tivessem alguma dificuldade em abrir uma janela. Enfim… Acabava por adormecer de cansaço, a janela aberta para a noite e um pensamento martelando-lhe a ideia… talvez se se chamasse antes Alice…
Hoje, tantos anos volvidos, penteia distraidamente o cabelo, mas a ternura do gesto está nas mãos que são de outro alguém e não suas. E sente uma estocada de dor porque sabe que já não pode acreditar.