Um eco de palavras ressoa nas paredes do meu corpo: gritos esparsos sufocados em meia folha de papel ou um silêncio amotinado.
Sou fraca por temer o dia em que, finalmente, deixarão de vir, caladas nas entranhas do que sou? Tenho medo que faltem, que não retornem, se chamo e elas não vêm. E adio a confrontação, agora não, mais tarde será. E as palavras que escrevi não me servem de consolo, porque nunca o que sou deve desmerecer o que fui. Ou assim o espero. Porque a conquista do ser é constante, praticada instante a instante, sofrida momento a momento. Uma labuta diária de interioridades, na busca de uma perfeição ou equilíbrio que não existirão nunca, porque há infinitos maiores do que outros. Há sim.
Não é birra de menina caprichosa, esta ausência tem corpo e ocupa tanto espaço. É a saudade do que não tenho. Saudade que Deus plantou em mim por engano. Porque deve ser engano nascer árvore sem raiz. Distracção. Castigo abençoado. Vou inventando sonhos que guardo numa mala que já não fecha e canso-me de a levar estrada fora. Hoje fiz da mala o meu assento e assim estou, fazendo beicinho por algo que ninguém me poderá dar. E bato o pé, e choro gritando e esperneio de fúria e desalento, criança bem treinada que fui, mas as palavras não são um brinquedo que se cobiça. São o meu amor amaldiçoado.

