Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas. Sophia
Sentença sem retorno ou apelação. É assim que recordo o que disseste. Compreendi, embora não tenha sentido. Mais tarde sim, haveria de sentir a crueldade de cada ênfase. Mais tarde, só mais tarde… Voltei-te as costas em silêncio, disfarçando de desprezo o meu orgulho ressentido.
Quando o meu corpo morria à míngua de um abraço, eu fugi de todos os afectos e parti em busca de uma casa junto ao mar, onde a dor vazasse num infinito maior e mais além.
Conduzi por estradas de ninguém. Por um tempo de horas, dirão os relógios do mundo. Por um tempo de dor, dirá a alma revisitada. Deixei que a música tocasse baixinho no rádio. Quis por força calar o silêncio que me lembra o escuro e a solidão. Mas a canção é quase sempre de amor e a palavra faz doer. E percebi que não importa. Seja voz ou silêncio, a dor não esquece.
Uma fiada de casas junto à costa. O areal é dos jardins mais belos que já vi. Vazias no Inverno. Não me recordo de alguma vez ter visto o mar num dia de chuva. O meu olhar é virgem em tantos mundos. Quando parei o carro, as lágrimas desabaram enfim. Uma confusão de três águas benditas, a lágrima, a chuva e o mar.
Antes de entrar na casa, limpei os olhos com as mãos violentas de quem sabe que terá uma lição dura e inútil pela frente, embora hoje saiba que assim não é.
Fixei o mar cinzento com o rosto erguido. Ninguém viu, mas eu tinha o rosto erguido. Aquele mar… Aquela chuva… Aquelas estrelas que eu pressentia sob o céu pesado e encoberto… Era isto que eu teria de aprender a amar acima de todos os afectos. Afectos são promessas humanas feitas com figas na mente, afectos são infinitos perecíveis e eu sempre me rendi às eternidades.