sábado, 14 de agosto de 2010

Digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti
Alexandre O’Neill

Escolhi um desses vestidos de Verão de que tanto gosto, mas que tu nunca me viste usar. Soltei o cabelo que os dedos da aragem não tardaram a despentear. Caminhei descalça na noite e, saltando de estrela em estrela, cheguei a um lugar que não sei. E que importa que não saiba, se o lugar é um pretexto, se o lugar és tu?
Despojei-me da raiva, da mágoa, do desengano e deixei somente a tristeza e a memória dos dias felizes. Tu dormias e eu fui um ladrão na noite. Com passos de veludo, aproximei-me e pousei-te um beijo na face. Talvez, no sono que dormias, o tenhas sentido como uma brisa muito doce. Talvez, quando a manhã chegar, encadeando de luz a noite que tanto amo e temo, retenhas a sensação dessa leve doçura que, por um instante vestido de eternidade, te arranhou o coração. Olhei o teu rosto cego para o que sou e, de mansinho, como cheguei assim parti.
Um dia serás para mim uma memória vaga e distante. Talvez me ria das lágrimas que verti por um amor primeiro. Talvez se conserve a memória das mãos, nunca o saberei, mas o coração vai-se vestindo de gelo e indiferença.
Vai em paz. Eu serei um viajante na noite e vou amparar-me nas estrelas, constantes e eternas, como o amor que um dia me prometeste.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Olímpia


Ele emergiu do poente como se fosse um deus
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo

Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos

Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido

Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas

De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes

De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado e esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia

Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 3 de agosto de 2010


Klimt

A primeira vez que vieste até mim. Eu lembro-me. A cadeira onde me encontro sentada é a mesma. Nesta casa muito pouco mudou. Já era velha nessa altura, hoje não sei que idade tenho. Sou velha, muito velha, demasiado velha. Tão velha, que às vezes penso que a morte me esqueceu. Nasci para ser velha. Fui criança, fui moça, fui mulher criada, mas a idade é o vestido que melhor me cai.
Dizem que enlouqueci. Não é verdade. Se existe loucura, é a de sempre. Mas um dia dei por mim revivendo as minhas memórias em voz alta. Podia pensar, falar em silêncio, mas a verdade é que gosto de ouvir a minha voz. Eles escutam, orelha sempre arrebitada para o que lhes é alheio, e por aí se comenta. Talvez não haja nisso maldade, talvez seja um entretém que lhes corta a monotonia dos dias. No fundo, todos precisamos dos pequenos escândalos e burburinhos. Não é por mal, é só do jeito que somos.
Hoje julgam-me louca, mas dias houve em que me tinham muito respeito. Cria-se que tinha um dom. Nasci cega em dia aziago. Sexta-feira, décimo terceiro dia do mês primeiro do ano que já não sei. Pura crendice, que também nisto se enganaram. Mas precisamos de pilares de magia em nossas vidas. É do jeito que somos. Não, não tinha o dom, pelo menos não esse. O meu dom era muito humano, muito terreno. Sempre fui muito perceptiva, muito intuitiva, muito sensitiva no que toca à nossa humanidade. Talvez porque nunca olhei, vi mais do que todos eles. Leio a alma na voz dos que me falam e raras vezes me engano. Dom ou não, foi o que fiz. Ler pessoas, conhecer humanidades.
No dia em que te conheci, a porta rangeu de velha e no soalho cansado soaram dois ou três passitos curiosos. Tão discretos, que eu me atreveria a dizer que estavas descalça. Um dia, já crescida, disseste-me que era nos pés que sentias a liberdade do corpo, por isso digo que sim, talvez os trouxesses vestidos dessa liberdade. Dois ou três passitos, depois nada. Longo tempo passou. Eu nada disse. Tu olhavas certamente o bricabraque desta casa orgulhosa onde nasci e, a dada altura, o teu olhar terá encontrado o lugar vazio do meu. E então falaste.
- Senhora…
- Aproxima-te pequena.
E tu vieste, sem medo ou hesitação. Peguei-te no rosto e senti a textura do teu cabelo crespo e em desalinho.
- És muito bonita.
- Como pode saber?
Não havia insolência, apenas curiosidade.
- Pela voz, pela tua voz.


Aparte


Neste Domingo que passou encontrei-me com a Patrícia, a Sofia e a Ana, com quem partilhei casa em Coimbra durante os dois primeiros anos da faculdade. A Patrícia e a Sofia, que eu já não via há algum tempo, terminaram este ano o curso. Ofereceram-me um presente que vinha acompanhado de algumas palavras. Prometi que postava no meu blog e, portanto, aqui vai...

Ainda te lembras?

Parece que foi ontem, mas já passaram dois anos! Foram dois anos repletos de muitos momentos especiais na companhia de todas. Foram dois anos nos quais partilhámos casa, nos quais nos conhecemos melhor. Dois anos de muito estudo e de alguma brincadeira também. Dois anos de muitas malandrices, de muita música, de muita dança...
Ainda te lembras das surpresas que te preparávamos? E a música que te fizemos? E os serões passados no teu quarto? (naqueles dias em que tu querias estudar nós insistíamos em te chatear?) E as músicas que nos ensinaste de medicina (que nos permitiram ser tão felizes nos cortejos e nos jantares de curso!) Enfim, foram dois anos muito especiais na tua companhia!!! Serás sempre a nossa "dama Bete"! A doutoura "mais boa" do curso de medicina!
A nossa caminhada por Coimbra já terminou... A tua ainda vai ser longa... Apesar disso, obrigada por também teres estado presente!
E não te esqueças de um dia nos convidares para uma mega party na tua quinta (aquela em que vais estar junto do teu príncipe, que vai ter dois cavalos, cães,...) Ah e quando fores à Quinta das Lágrimas, queremos ser as primeiras a saber ;)! Porque depois já podemos ir todas juntas!

É claro que me lembro. E sei que a amizade não se faz de palavras profundas, essas vêm depois. A amizade são as travessuras, os risos, os momentos sem importância aparente. É claro que me lembro. Mas quero dizer-vos também que estamos vivas e a amizade não é um baú onde se guardam memórias empoeiradas. Lembro e prometo guardar, mas, sobretudo, desejo que continuemos a viver e a construir. Obrigada.


quinta-feira, 29 de julho de 2010



Esta é a minha resposta ao desafio que me foi proposto pelo AC:

Porque é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?

A minha relação com as palavras, através da escrita e, fundamentalmente, da leitura, é antiga. Conturbada, é certo, mas antiga. Momentos há em que me afasto, mas esta é a casa onde acabo sempre por regressar. Sempre.
Quando entrei para a faculdade, já lá vão três anos, deixei de escrever. De quando em quando, muito esporadicamente, lá ia escrevendo um texto ao outro e, mais recentemente, enviava à professora Isabel para que lesse. Talvez procurasse uma palavra de incentivo. Esta senhora acreditou sempre…
Criei este blog nesta última passagem de ano, com a ajuda do meu primo Marco. Era uma ideia que namorava há algum tempo, mas…
Acreditei, largos tempos, que escrevia para mim. Hoje não sei. Se ninguém me lesse, teria eu a coragem de me achar capaz? Hoje não sei. Preciso que me leiam.

Em que data exacta iniciou o blogue?

Como já referi, criei este blog na passagem de ano. Por isso, existem apenas dois posts de 2009.

Nomeie cinco seguidores leais.

A professora Isabel foi a primeira leitora deste blog, como não podia deixar de ser. Foi ela que trouxe até mim a Ibel, a minha fada boa, que eu acredito que me abraçou para a vida. Depois veio o AC. Se ele pudesse imaginar quantos sorrisos de contentamento as suas palavras cheias de ânimo e incentivo desenharam no meu rosto…
A Diana Cabral, com as suas palavras cheias de carinho... Lembro-me do caderninho de Fernando Pessoa que me ofereceste um dia para que eu escrevesse.
E a minha mana pequenina que, muito embora nem sempre perceba, nunca deixou de ler.
Mas não me esqueço das pessoas que me seguem em silêncio.
Às pessoas que chegaram mais recentemente, expresso o desejo que fiquem…

E pronto… É mais ou menos isto. Para terminar, e para vós, aqui fica uma mensagem que Saint-Exúpery…

Cada um que passa na nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa na nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. Esta é a maior responsabilidade da nossa vida e a prova evidente de que as pessoas não se encontram ao acaso.