Ia e vinha em vagas discretas, que o mar nesta terra é comedido. Estremecias quando uma onda mais atrevida te salpicava o corpo de frio, mas não arredavas pé, firme nesse teu propósito de criança.
O lugar onde as águas e a areia se abraçam. Aí estiveste por tempos que não sei definir, porque o mar se faz de eternidades e nós, humanos, de brevidades e instantes.
Uma criança, tu criança, esperando a onda que traz e leva, para novamente trazer e levar, num bailado de repetições aparentes.
Encontraste um pedaço de uma concha azul, belíssima, perdida num punhado de areia. Tão pequeno o pedaço, tão estilhaçada a concha, que só mesmo um olhar de criança poderia captar tal brilho entre os escolhos que nos varrem os pés à beira-mar.
Perguntaste-me se gostava e eu assenti, porque era, de facto, linda. A concha, mas, sobretudo tu, criança.
Disseste-me que, para mim, procurarias os outros pedacinhos e, no fim, juntá-los-íamos.
Desta praia onde sou estranha não vou guardar as conchas de linhas perfeitas. Guardarei, antes, essa concha azul que me ofereceste em pedaços e que eu reconstruí, inteira, no lugar de dentro.
