segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ele


Nessa tarde, a porta do pequeno apartamento onde vivias estava encostada. Que descuido!, lembro-me de ter pensado. Mas distracções ou desleixos desta natureza eram frequentes. Ainda hoje não sei do que tinhas medo. Capaz de, sozinha, percorreres, à noite, as ruas da cidade, mas chorando baixinho se a mão negra que só tu vias te fazia festas no rosto. Medos sem substância. Fantasmas. Memórias. Vivências. Projecções. Era esta a tua casa assombrada.
Bati e, como se ninguém respondesse, entrei. Uma tesoura de grandes pontas, negra dos muitos anos que teria, estava pousada sobre uma mesa e, espalhadas pelo chão, mechas desse cabelo de que tanto gostavas. Nenhum espelho.
Entraste na sala, vestindo as roupas velhas e roçadas com que gostavas de andar por casa. O teu cabelo, o cabelo que penteavas com tanto esmero, sempre direito, sempre correcto, era agora uma moldura desalinhada. Um corte tosco, descuidado. Uma massa revolta era o que agora te enquadrava o rosto.
Mas, mais do que tudo, impressionou-me esse teu sorriso de catraia, tão feliz, tão leve, tão genuíno.
Nesse momento, apaixonei-me por ti. Outra vez.

segunda-feira, 12 de julho de 2010


… Foi nessa altura que tropecei nesse teu choro baixinho. Estaquei e assim fiquei, por minutos fundos que nem horas. E fui um ladrão na noite, espiando das sombras essa tua alma desnudada. Choras baixinho, sabes? Com descrição. Com resguardo. Choras como quem desvia o olhar. Porque fazes das lágrimas o teu maior segredo?
Abri a porta desse teu quarto de bonecas e, com os olhos, pedi licença para entrar. O teu olhar feito mar resvalou sobre mim e o que vi foi um lampejo de contrariedade. Não vergonha, apenas contrariedade. Porque te surpreendi, não num momento de fraqueza, mas nessa suprema intimidade de seres.
Eu entrei e, uma vez mais, me senti intruso no teu mundo. O teu quarto parece perdido num tempo de fantasia e, nas paredes que te contêm, sinto o respirar do tanto que és.
Sentei-me com cuidado, consciente de que a rudeza podia calejar de mágoa o teu mundo de cristal. A tua voz falou. Pediste-me que, por essa noite, por uma noite, te guardasse o coração. Doeu-me a tua fragilidade e quis tanto, por uma noite que fosse, pegar em minhas mãos o chumbo que trazes em ti.
Ajoelhei-me junto da tua cama pequenina, afaguei-te o cabelo e limpei uma lágrima que te nascia no canto do olho. E admirei-me, sabes? Como pode uma lágrima, essa leve transparência, ser sinónimo de tanta dor?
Pediste-me que te lesse uma história. Eu peguei no livro que tinhas à cabeceira e li. Logo me arrependi. A história d’ O Monte dos Vendavais é sombria, linda, certamente, mas sombria e eu queria tocar-te de alegria. Devolvi o livro ao lugar que lhe destinaste. Tu, adivinhando-me os pensamentos e a intenção do gesto, sorriste com descrição e, como quem confidencia, falaste-me de Catherine e Heathcliff e concluíste dizendo que o amor mais nobre e puro pode nascer no coração mais rude e desgraçado.
Fiquei em silêncio, pegando a tua mão fria, até que acabaste por adormecer. E lembro-me de ter pensado, olhando o teu rosto adormecido, que a tua vida era como o céu nocturno: uma mescla de pequenos pontos brilhantes num manto de negritude.

domingo, 4 de julho de 2010


Agora que já deste a volta no mundo
Já sabes, não há mais longe nem mais fundo
Do que por dentro onde guardaste o que foi teu


Ao teu redor, Mafalda Veiga



quarta-feira, 30 de junho de 2010


Noite dentro, e eu sentada diante de uma folha de papel, branca das palavras que não escrevi.
Noite de Verão. Eu gosto das noites de Verão, gosto de ficar acordada por horas infindas, o sono pesando-me talvez sobre as pálpebras, mas eu resistindo sempre, pelo privilégio de espreitar um mundo adormecido. Pela janela aberta entra uma brisa suave que disfarça em marca de água o calor desaustinado que apertou durante o dia. A cortina ondula em meneios de mistério e eu finjo, só pelo gosto de criar fantasia, que os ruídos da noite são em verdade assobios das estrelas cimeiras.
Olho a folha ainda branca. Ainda não aprendi a lidar com elas, com as palavras, quero eu dizer. Sempre me parece que chegam contrariadas, como se não gostassem de mim e as arreliasse a minha insistência. E eu, que gosto tanto delas, arrelio-me de igual modo, porque creio vivamente que todos os grandes amores deviam ser correspondidos.
Às vezes desespero. Eu queria tanto e elas não vêm. Entre o ser e a vontade de ser há um fosso de frustração. Tantas palavras belas em viva roda pelo mundo e, em mim, essa cobiça, entremeada de tristeza, por aquilo que, talvez, nunca terei.
Tenho pena por não saber escrever sobre as coisas pequeninas. Gostava de saber descrever, em palavras simples e despojadas, tudo o que vejo à minha volta. Mas não… Talvez cisme demais. É o que o meu pai me vem dizendo, desde que me lembro de ser gente.
No outro dia, no telhado, enquanto comia cerejas, pus-me a pensar como escreveria eu esse momento.
É tão difícil escrever sentimentos. Ou sensações. Ou qualquer coisa. É tão difícil escrever.
Hoje, eu juro, só queria ser capaz de escrever um telhado e uma menina mulher sentada lá no alto, pescando cerejas, num desafio mudo ao mundo, esse senhor sério que olha com ar reprovador, porque esqueceu como é bom subir às árvores.

terça-feira, 22 de junho de 2010



No dia em que fizeste vinte e um anos, vieram as fadas e os duendes e, nessa língua que se escreve palavras magia, segredaram-te ao ouvido um desejo que no coração ficou.
No sono que dormias, cerraste os punhos com força, com uma gana desumana de agarrar esse pedaço de nuvem que te traziam como presente.
No torpor do encantamento, acordaste e olhaste as estrelas sorrindo, como quem pede à Fortuna complacência pela ânsia que não cala e persiste. Por um instante, foste um sonho sem freio e o olhar brilhou de chama renascida.
E leste, nessa verdade de ti, nessa verdade de seres, que a crença, essa divisa que trazes no peito, é, afinal, imorredoira.

quarta-feira, 16 de junho de 2010



Vês aquela casa, ali adiante?
Foi um dia minha. A minha casa de viver. Há anos que ninguém lá mora. Eu despedi-me dela e vim para aqui, para esta casa de meu irmão, no fundo da mesma rua. Às vezes espreitava-a, de longe, ou de perto, quando o passo trôpego e cansado consentia. Sempre o mesmo sorriso de casa minha e eu a iludir-me, forçando a crença, ou julgando deveras, que tudo é ainda o mesmo. Mas o tempo…
Hoje não tenho sequer a ilusão. Construirão uma outra casa no lugar da casa minha. Talvez preservem as paredes que me resguardaram do mundo, tudo o resto será destruído.
Sabes pequena, eu preocupo-me. Preocupo-me com as memórias. Para onde irão, agora que perderam o poiso?
Durante a manhã, os homens transportaram os caixotes repletos daquilo que é ainda meu. Vi de longe aquele espelho de prata, magnífico, e lembrei-me do dia em que nele me olhei nua e bela, apenas duas pérolas espreitando entre o cabelo revolto. Vês o meu cabelo? É branco de tempo e a pele, que foi seda e toque nas mãos de alguém, está gasta.
Hoje, a casa minha é um sorriso rasgado de destroços. Amanhã outra sorrirá no lugar da sua ruína. Dizem que as memórias nos sobrevivem, mas as minhas morreram antes de mim.