terça-feira, 22 de junho de 2010



No dia em que fizeste vinte e um anos, vieram as fadas e os duendes e, nessa língua que se escreve palavras magia, segredaram-te ao ouvido um desejo que no coração ficou.
No sono que dormias, cerraste os punhos com força, com uma gana desumana de agarrar esse pedaço de nuvem que te traziam como presente.
No torpor do encantamento, acordaste e olhaste as estrelas sorrindo, como quem pede à Fortuna complacência pela ânsia que não cala e persiste. Por um instante, foste um sonho sem freio e o olhar brilhou de chama renascida.
E leste, nessa verdade de ti, nessa verdade de seres, que a crença, essa divisa que trazes no peito, é, afinal, imorredoira.

quarta-feira, 16 de junho de 2010



Vês aquela casa, ali adiante?
Foi um dia minha. A minha casa de viver. Há anos que ninguém lá mora. Eu despedi-me dela e vim para aqui, para esta casa de meu irmão, no fundo da mesma rua. Às vezes espreitava-a, de longe, ou de perto, quando o passo trôpego e cansado consentia. Sempre o mesmo sorriso de casa minha e eu a iludir-me, forçando a crença, ou julgando deveras, que tudo é ainda o mesmo. Mas o tempo…
Hoje não tenho sequer a ilusão. Construirão uma outra casa no lugar da casa minha. Talvez preservem as paredes que me resguardaram do mundo, tudo o resto será destruído.
Sabes pequena, eu preocupo-me. Preocupo-me com as memórias. Para onde irão, agora que perderam o poiso?
Durante a manhã, os homens transportaram os caixotes repletos daquilo que é ainda meu. Vi de longe aquele espelho de prata, magnífico, e lembrei-me do dia em que nele me olhei nua e bela, apenas duas pérolas espreitando entre o cabelo revolto. Vês o meu cabelo? É branco de tempo e a pele, que foi seda e toque nas mãos de alguém, está gasta.
Hoje, a casa minha é um sorriso rasgado de destroços. Amanhã outra sorrirá no lugar da sua ruína. Dizem que as memórias nos sobrevivem, mas as minhas morreram antes de mim.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

No teu poema...


No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.
No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta, uma varanda para o Mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva, a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe a noite
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
O cais da nova nau das descobertas.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco, ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera... do futuro.

José Luís Tinoco


So she dances



A waltz when she walks in the room
She pulls back the hair from her face
She turns to the window to sway in the moonlight
Even her shadow has grace
A waltz for the girl out of reach
She lifts her hands up to the sky
She moves with the music
The song is her lover
The melody's making her cry
So she dances
In and out of the crowd like a glance
This romance is
From afar calling me silently

A waltz for the chance I should take
But how will I know where to start?
She's spinning between constellations and dreams
Her rhythm is my beating heart

So she dances
In and down off the ground like a glance
This romance is
From afar calling me silently

I can't keep on watching forever
I give up this view just to tell her

When I close my eyes I can see
The spotlights are bright on you and me
We've got the floor
And you're in my arms
How could I ask for more?

So she dances
In and down off the ground like a glance
This romance is
From afar calling me silently

I can't keep on watching forever
And I'm givin' up this view just to tell her

Josh Groban


terça-feira, 8 de junho de 2010

Palavras


Fiz das palavras o meu modo de vida. Não creio que tenha sido uma escolha. Aliás, teria sido uma fraca escolha para alguém que sempre se reconheceu como inapto. Não, não foi uma escolha e não sei sequer quando aconteceu. Mas aconteceu… Como uma troca de olhares entre dois desconhecidos que, de tão profunda, de tão intensa, se torna irreparável.
Palavras… São um convite à loucura, sei-o. E, no entanto, a perdição, o abismo têm um encanto insinuante, perverso, irremediável. Sei há muito que este caminho que trilho, solitário, marginal, divergente, não tem retrocesso. Dizem que a paixão é efémera e volúvel. Talvez o seja, o mais das vezes. As grandes paixões, porém, aliam a constância à intensidade, e não têm remedeio possível.
Não tenho escrito muito. Confessá-lo é reconhecer o fracasso e, no entanto, faço-o com o despudor de quem se sabe inocente. Em contrapartida, leio desaustinadamente, com a avidez dos que procuram desesperadamente salvar-se.
Hoje não me chega ler nas palavras de outros o que sinto ou desejaria sentir. Quero ser eu a dize-lo, mesmo sabendo que me debato debalde, porque as palavras, estas que escrevo, não as que tenho impressas na alma, são toscas, grosseiras, levianas até.
Sinto, penso e sei excessivamente e nunca serei capaz de o dizer. Fazem-me falta as palavras: para me ver, para que me vejam. Porque, se é certo que me escondo, é também verdade que preciso desesperadamente que me encontrem, me olhem, me leiam…
Fazem-me falta as palavras, apesar de serem a presença mais sólida na minha vida. É paradoxal, eu sei… Mas também, o que tem sido a minha vida, senão uma síntese de extremos e ambiguidades? Tudo ou nada, sem contemplações.
Hoje escrevo, mesmo que todos os deuses se insurjam e me gritem aos ouvidos a minha inépcia.
Escrevo porque estou cansada do lugar comum, do mundano, do ordinário; escrevo porque o meu coração de porcelana se fez em cacos e necessita urgentemente de conserto; escrevo porque lá fora se faz noite e os fantasmas não tardarão a chegar; escrevo porque sim, e esta resposta tem de bastar.
Março de 2009

sexta-feira, 4 de junho de 2010



Procurou-lhe o olhar e o que viu foi a sua sombra, a sombra de um olhar num rosto de prata.
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, mas ainda assim o olhar bailava e se escondia. Então zangou-se. E foi ríspido e áspero e rude quando lhe disse palavras e olhares que acusavam fraqueza. Ou cobardia.
Ela, despeitada, olhou-o enfim. Como se a rugosidade das palavras a magoasse. Ou lhe ferisse o orgulho. Olhou-o como quem queima.
Ele sorriu. Um sorriso que ressumava ternura perante o rosto daquela menina estranha e distante, que se cosia em extremos e ambiguidades.
- Que nunca se quebre o teu olhar de fada.


Estás imóvel e só, estacada diante de um espelho, nesse quarto a meia luz. Estás só e não estás. Há um silêncio que grita ecos de ausências que te não deixam ouvir a tua voz. Há um desfiladeiro de rostos pedra, rostos idos e as memórias são escarpas, agudas, acutilantes…
“Hoje, não há espaço para vós. Minha alma está cheia de mim. Recuai.”
Há a tua imagem num espelho e não há desafio ou nudez maior que essa de olhares o teu olhar. Alguém te ergue o rosto para que te olhes. Um dia, não precisarás que o façam, pois o teu olhar fugidio subirá à altura e olhará a perda de frente. Sozinha, hás-de aprender a amar cada traço desse rosto estranho e teu. Tu tens um rosto! Haverá privilégio maior? E os quartos que desconheces na tua alma em chamas abrir-se-ão um dia ao mundo. Floridos de muitas flores.
Há um mundo azul para lá do teu olhar de névoa… Há um mundo. Esse. Há uma alma. A tua. Há uma vida que não se repete e um desejo imenso de sentir, de conhecer, de ser.
“Se eu me quiser ler nos astros, quem me dirá que não consente?”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mar


Ela disse-lhe que queria ver o mar. Com os olhos vidrados de loucura e inquietação, disse-lhe que queria ver o mar. Ele ainda pensou em dissuadi-la, mas logo a mão se suspendeu no gesto vago de quem pressente que há olhares que não se travam ou enfrentam.
Uma praia deserta numa noite de Inverno e um vulto caminhando descalço pelo areal. Passo trémulo, olhar febril e a calma que há-de vir quando esse mar bravio, de alma indómita e fugidia, lhe beijar os pés de seda e a orla do branco vestido.
Ela senta-se e para lá fica, mareando sonhos vela nas vagas de uma alma inquieta. Sente frio, o frio do beijo molhado da chuva contra o seu rosto. Sente frio, uma sensação rude, mas viva. Sente frio e sente-se viva.
Tarda e ele inquieta-se. Segue os passos desenhados na areia e vislumbra o vulto através de uma fina cortina de chuva, nessa praia vazia de gente e tão cheia de infinito. Interrompe a marcha apressada e, por um momento, fica ali, estacado, observando-a. Uma menina vestindo de branco, sentada no areal, olhando o mar nos olhos e buscando o sossego ou a inquietação, não saberia dizer, porque esse mundo dos outros nos é, no fim de contas, tão alheio e velado…
Leva-a em braços até ao quarto de menina e pousa aquele corpo esguio sobre a cama. Ela dorme o cansaço de um corpo vergado pela alma esfaimada. A mão aberta abandonada junto ao rosto de bela adormecida. Ele fixa o rosto que o toca de ternura e, cuidando para que a brancura do gesto não se quebre, pousa os seus lábios sobre os lábios frios da menina de mármore.
Antes de se retirar, ainda ouve os sonhos dela falando baixinho, assim como quem segreda…
- Mas a lua é um infinito que cabe no olhar e eu hoje queria ver o mar…