terça-feira, 8 de junho de 2010

Palavras


Fiz das palavras o meu modo de vida. Não creio que tenha sido uma escolha. Aliás, teria sido uma fraca escolha para alguém que sempre se reconheceu como inapto. Não, não foi uma escolha e não sei sequer quando aconteceu. Mas aconteceu… Como uma troca de olhares entre dois desconhecidos que, de tão profunda, de tão intensa, se torna irreparável.
Palavras… São um convite à loucura, sei-o. E, no entanto, a perdição, o abismo têm um encanto insinuante, perverso, irremediável. Sei há muito que este caminho que trilho, solitário, marginal, divergente, não tem retrocesso. Dizem que a paixão é efémera e volúvel. Talvez o seja, o mais das vezes. As grandes paixões, porém, aliam a constância à intensidade, e não têm remedeio possível.
Não tenho escrito muito. Confessá-lo é reconhecer o fracasso e, no entanto, faço-o com o despudor de quem se sabe inocente. Em contrapartida, leio desaustinadamente, com a avidez dos que procuram desesperadamente salvar-se.
Hoje não me chega ler nas palavras de outros o que sinto ou desejaria sentir. Quero ser eu a dize-lo, mesmo sabendo que me debato debalde, porque as palavras, estas que escrevo, não as que tenho impressas na alma, são toscas, grosseiras, levianas até.
Sinto, penso e sei excessivamente e nunca serei capaz de o dizer. Fazem-me falta as palavras: para me ver, para que me vejam. Porque, se é certo que me escondo, é também verdade que preciso desesperadamente que me encontrem, me olhem, me leiam…
Fazem-me falta as palavras, apesar de serem a presença mais sólida na minha vida. É paradoxal, eu sei… Mas também, o que tem sido a minha vida, senão uma síntese de extremos e ambiguidades? Tudo ou nada, sem contemplações.
Hoje escrevo, mesmo que todos os deuses se insurjam e me gritem aos ouvidos a minha inépcia.
Escrevo porque estou cansada do lugar comum, do mundano, do ordinário; escrevo porque o meu coração de porcelana se fez em cacos e necessita urgentemente de conserto; escrevo porque lá fora se faz noite e os fantasmas não tardarão a chegar; escrevo porque sim, e esta resposta tem de bastar.
Março de 2009

sexta-feira, 4 de junho de 2010



Procurou-lhe o olhar e o que viu foi a sua sombra, a sombra de um olhar num rosto de prata.
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, mas ainda assim o olhar bailava e se escondia. Então zangou-se. E foi ríspido e áspero e rude quando lhe disse palavras e olhares que acusavam fraqueza. Ou cobardia.
Ela, despeitada, olhou-o enfim. Como se a rugosidade das palavras a magoasse. Ou lhe ferisse o orgulho. Olhou-o como quem queima.
Ele sorriu. Um sorriso que ressumava ternura perante o rosto daquela menina estranha e distante, que se cosia em extremos e ambiguidades.
- Que nunca se quebre o teu olhar de fada.


Estás imóvel e só, estacada diante de um espelho, nesse quarto a meia luz. Estás só e não estás. Há um silêncio que grita ecos de ausências que te não deixam ouvir a tua voz. Há um desfiladeiro de rostos pedra, rostos idos e as memórias são escarpas, agudas, acutilantes…
“Hoje, não há espaço para vós. Minha alma está cheia de mim. Recuai.”
Há a tua imagem num espelho e não há desafio ou nudez maior que essa de olhares o teu olhar. Alguém te ergue o rosto para que te olhes. Um dia, não precisarás que o façam, pois o teu olhar fugidio subirá à altura e olhará a perda de frente. Sozinha, hás-de aprender a amar cada traço desse rosto estranho e teu. Tu tens um rosto! Haverá privilégio maior? E os quartos que desconheces na tua alma em chamas abrir-se-ão um dia ao mundo. Floridos de muitas flores.
Há um mundo azul para lá do teu olhar de névoa… Há um mundo. Esse. Há uma alma. A tua. Há uma vida que não se repete e um desejo imenso de sentir, de conhecer, de ser.
“Se eu me quiser ler nos astros, quem me dirá que não consente?”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mar


Ela disse-lhe que queria ver o mar. Com os olhos vidrados de loucura e inquietação, disse-lhe que queria ver o mar. Ele ainda pensou em dissuadi-la, mas logo a mão se suspendeu no gesto vago de quem pressente que há olhares que não se travam ou enfrentam.
Uma praia deserta numa noite de Inverno e um vulto caminhando descalço pelo areal. Passo trémulo, olhar febril e a calma que há-de vir quando esse mar bravio, de alma indómita e fugidia, lhe beijar os pés de seda e a orla do branco vestido.
Ela senta-se e para lá fica, mareando sonhos vela nas vagas de uma alma inquieta. Sente frio, o frio do beijo molhado da chuva contra o seu rosto. Sente frio, uma sensação rude, mas viva. Sente frio e sente-se viva.
Tarda e ele inquieta-se. Segue os passos desenhados na areia e vislumbra o vulto através de uma fina cortina de chuva, nessa praia vazia de gente e tão cheia de infinito. Interrompe a marcha apressada e, por um momento, fica ali, estacado, observando-a. Uma menina vestindo de branco, sentada no areal, olhando o mar nos olhos e buscando o sossego ou a inquietação, não saberia dizer, porque esse mundo dos outros nos é, no fim de contas, tão alheio e velado…
Leva-a em braços até ao quarto de menina e pousa aquele corpo esguio sobre a cama. Ela dorme o cansaço de um corpo vergado pela alma esfaimada. A mão aberta abandonada junto ao rosto de bela adormecida. Ele fixa o rosto que o toca de ternura e, cuidando para que a brancura do gesto não se quebre, pousa os seus lábios sobre os lábios frios da menina de mármore.
Antes de se retirar, ainda ouve os sonhos dela falando baixinho, assim como quem segreda…
- Mas a lua é um infinito que cabe no olhar e eu hoje queria ver o mar…




Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coimbra. “Como não podia deixar de ser”


“Coimbra, como não podia deixar de ser”. Foi Miguel Torga quem o disse. Gostava de ter sido eu a dizê-lo, pois, à minha maneira desajeitada, também eu o sinto.
Tantos escreveram sobre ti. Palavras lindas, como só tu serias capaz de inspirar… És bem-amada. Têm-to dito.
Hoje, também eu gostaria de escrever sobre a minha cidade, saudar-te neste pedaço de papel. E contudo, a tarefa apresenta-se-me dantesca, impossível. Peço-te que me deixes prosseguir, na certeza de que, se hoje te ofereço um mero rascunho, chegará o dia em que te prestarei a justa e merecida homenagem.
Recuo alguns meses, largos meses, devo dizer. Parece que foi há tão pouco, mas já passou mais de um ano. Às vezes, não posso deixar de pensar que o tempo é manifestamente batoteiro. Tinha terminado o secundário e, uma vez decidido o curso, faltava a cidade. Não creio que a decisão tenha sido minha. Se acreditasse no destino, diria que tudo estava já escrito. Ainda assim, quis ter a certeza. Marquei encontro contigo. Nesse dia, piscaste-me o olho, travessa, e eu sorri. Tinha chegado a casa.
Sobre esta cidade, alguém um dia escreveu: “Coimbra não se chama Coimbra. Tem o longo nome do local onde nasci. Não onde as dores da minha mãe me fizeram urgência, mas onde eu próprio me gerei para depois me dar à luz”. Estranhamente, a empatia nasce também entre pessoas e lugares e também eu escolhi nascer em ti, para ti.
Há entre mim e a cidade uma certa afinidade de temperamento. Talvez seja uma grande presunção pensá-lo e um pecado ainda maior escrevê-lo. Em minha defesa, devo acrescentar que é da minha cidade que falo, essa que se molda e reconstrói para cada um de nós…
Assim, quando me invade essa alegria tola e infantil que me faz abraçar o mundo, sou Coimbra ao Sol; quando o meu coração se remorde em nostalgias, sou Coimbra fustigada por essa chuva miudinha, tão doce e triste; quando a minha alma é um poço sem fundo, onde grassam o desespero e a solidão, sou Coimbra trajando a noite e os séculos.
Talvez saiba muito pouco sobre esta cidade. Há ignorância no meu olhar e reconhecê-lo é também uma forma de redenção. Mas há também inocência, a inocência de uma entrega incondicional. Quem ama, não sabe o porquê.
Cidade do amor, guardarás, pelos séculos e séculos que hão-de vir, os sussurros e os brados desse rei louco que fez do desejo a sua divisa. “Désir. À mon Seul désir.” Eras tu, Inês. Só tu. É preciso ser-se louco para amar. É sim.
E entre devaneios, o dia se fez noite. Indolentemente, de mansinho, a cidade cobriu-se de um manto negro pintalgado de estrelas. É bonita, a noite. Da cidade já o tinha dito. A combinação é dolorosa. E por isso choro. Com as lágrimas, escorre-se o acessório, até ficar apenas o essencial, a alma a nu, frágil e desprotegida.
Não me inquieto. Hoje estou em paz. Sei que acabarei por adormecer, enroscada no teu abraço.

Março 2009

sexta-feira, 14 de maio de 2010


Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira