quinta-feira, 27 de maio de 2010




Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coimbra. “Como não podia deixar de ser”


“Coimbra, como não podia deixar de ser”. Foi Miguel Torga quem o disse. Gostava de ter sido eu a dizê-lo, pois, à minha maneira desajeitada, também eu o sinto.
Tantos escreveram sobre ti. Palavras lindas, como só tu serias capaz de inspirar… És bem-amada. Têm-to dito.
Hoje, também eu gostaria de escrever sobre a minha cidade, saudar-te neste pedaço de papel. E contudo, a tarefa apresenta-se-me dantesca, impossível. Peço-te que me deixes prosseguir, na certeza de que, se hoje te ofereço um mero rascunho, chegará o dia em que te prestarei a justa e merecida homenagem.
Recuo alguns meses, largos meses, devo dizer. Parece que foi há tão pouco, mas já passou mais de um ano. Às vezes, não posso deixar de pensar que o tempo é manifestamente batoteiro. Tinha terminado o secundário e, uma vez decidido o curso, faltava a cidade. Não creio que a decisão tenha sido minha. Se acreditasse no destino, diria que tudo estava já escrito. Ainda assim, quis ter a certeza. Marquei encontro contigo. Nesse dia, piscaste-me o olho, travessa, e eu sorri. Tinha chegado a casa.
Sobre esta cidade, alguém um dia escreveu: “Coimbra não se chama Coimbra. Tem o longo nome do local onde nasci. Não onde as dores da minha mãe me fizeram urgência, mas onde eu próprio me gerei para depois me dar à luz”. Estranhamente, a empatia nasce também entre pessoas e lugares e também eu escolhi nascer em ti, para ti.
Há entre mim e a cidade uma certa afinidade de temperamento. Talvez seja uma grande presunção pensá-lo e um pecado ainda maior escrevê-lo. Em minha defesa, devo acrescentar que é da minha cidade que falo, essa que se molda e reconstrói para cada um de nós…
Assim, quando me invade essa alegria tola e infantil que me faz abraçar o mundo, sou Coimbra ao Sol; quando o meu coração se remorde em nostalgias, sou Coimbra fustigada por essa chuva miudinha, tão doce e triste; quando a minha alma é um poço sem fundo, onde grassam o desespero e a solidão, sou Coimbra trajando a noite e os séculos.
Talvez saiba muito pouco sobre esta cidade. Há ignorância no meu olhar e reconhecê-lo é também uma forma de redenção. Mas há também inocência, a inocência de uma entrega incondicional. Quem ama, não sabe o porquê.
Cidade do amor, guardarás, pelos séculos e séculos que hão-de vir, os sussurros e os brados desse rei louco que fez do desejo a sua divisa. “Désir. À mon Seul désir.” Eras tu, Inês. Só tu. É preciso ser-se louco para amar. É sim.
E entre devaneios, o dia se fez noite. Indolentemente, de mansinho, a cidade cobriu-se de um manto negro pintalgado de estrelas. É bonita, a noite. Da cidade já o tinha dito. A combinação é dolorosa. E por isso choro. Com as lágrimas, escorre-se o acessório, até ficar apenas o essencial, a alma a nu, frágil e desprotegida.
Não me inquieto. Hoje estou em paz. Sei que acabarei por adormecer, enroscada no teu abraço.

Março 2009

sexta-feira, 14 de maio de 2010


Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 10 de maio de 2010


Vives entre quartos infindos firmados em paredes de ausência. Desenhaste janelas sem trinco, pontes submersas, fundos falsos e vais pintando esse castelo de fumo com as cores garridas de um orgulho feliz. Porque te lembra a voz feiticeira… Filha, sorri, sorri sempre. Esconde a lágrima e o pesar, não lhos mostres. És linda e ainda hás-de ser muito feliz.
Talvez as portadas desse castelo se abram um dia em verdade. Vestes de branco, porque hás-de nascer.


Lutaram corpo a corpo com o frio
Das casas onde nunca ninguém passa,
Sós, em quartos imensos de vazio,
Com um poente em chamas na vidraça.
Sophia

In the arms of the angel