“Coimbra, como não podia deixar de ser”. Foi Miguel Torga quem o disse. Gostava de ter sido eu a dizê-lo, pois, à minha maneira desajeitada, também eu o sinto.
Tantos escreveram sobre ti. Palavras lindas, como só tu serias capaz de inspirar… És bem-amada. Têm-to dito.
Hoje, também eu gostaria de escrever sobre a minha cidade, saudar-te neste pedaço de papel. E contudo, a tarefa apresenta-se-me dantesca, impossível. Peço-te que me deixes prosseguir, na certeza de que, se hoje te ofereço um mero rascunho, chegará o dia em que te prestarei a justa e merecida homenagem.
Recuo alguns meses, largos meses, devo dizer. Parece que foi há tão pouco, mas já passou mais de um ano. Às vezes, não posso deixar de pensar que o tempo é manifestamente batoteiro. Tinha terminado o secundário e, uma vez decidido o curso, faltava a cidade. Não creio que a decisão tenha sido minha. Se acreditasse no destino, diria que tudo estava já escrito. Ainda assim, quis ter a certeza. Marquei encontro contigo. Nesse dia, piscaste-me o olho, travessa, e eu sorri. Tinha chegado a casa.
Sobre esta cidade, alguém um dia escreveu: “Coimbra não se chama Coimbra. Tem o longo nome do local onde nasci. Não onde as dores da minha mãe me fizeram urgência, mas onde eu próprio me gerei para depois me dar à luz”. Estranhamente, a empatia nasce também entre pessoas e lugares e também eu escolhi nascer em ti, para ti.
Há entre mim e a cidade uma certa afinidade de temperamento. Talvez seja uma grande presunção pensá-lo e um pecado ainda maior escrevê-lo. Em minha defesa, devo acrescentar que é da minha cidade que falo, essa que se molda e reconstrói para cada um de nós…
Assim, quando me invade essa alegria tola e infantil que me faz abraçar o mundo, sou Coimbra ao Sol; quando o meu coração se remorde em nostalgias, sou Coimbra fustigada por essa chuva miudinha, tão doce e triste; quando a minha alma é um poço sem fundo, onde grassam o desespero e a solidão, sou Coimbra trajando a noite e os séculos.
Talvez saiba muito pouco sobre esta cidade. Há ignorância no meu olhar e reconhecê-lo é também uma forma de redenção. Mas há também inocência, a inocência de uma entrega incondicional. Quem ama, não sabe o porquê.
Cidade do amor, guardarás, pelos séculos e séculos que hão-de vir, os sussurros e os brados desse rei louco que fez do desejo a sua divisa. “Désir. À mon Seul désir.” Eras tu, Inês. Só tu. É preciso ser-se louco para amar. É sim.
E entre devaneios, o dia se fez noite. Indolentemente, de mansinho, a cidade cobriu-se de um manto negro pintalgado de estrelas. É bonita, a noite. Da cidade já o tinha dito. A combinação é dolorosa. E por isso choro. Com as lágrimas, escorre-se o acessório, até ficar apenas o essencial, a alma a nu, frágil e desprotegida.
Não me inquieto. Hoje estou em paz. Sei que acabarei por adormecer, enroscada no teu abraço.
Março 2009