Sobre a profissão que escolhi para a vida só escrevi duas vezes. É dessas palavras prenhes de silêncio, que nos cala a arrogância e nos veste de humildade e pequenez.
Sou estudante de Medicina…
É muito provável que os olhos se abram de espanto e a voz que os acompanha se me dirija…
- E tem coragem, menina?
E eu retraio-me e pinto-me de culpa, por ter ousado coragem, desprezando essa frágil fraqueza que tanto lêem em mim. E no instante seguinte, lá vou arvorando um sorriso e levemente respondo…
- Pois hei-de ter.
Há medos estrebuchando dentro de mim, mas eu cerro os punhos e disfarço. Ninguém me perdoa os meus vinte anos. Não ali, onde responsabilidade se escreve com letra grande e portentosa.
Olham-me de fora e vêem um rosto de menina. Talvez questionem, como eu questiono, a firmeza de espírito desta criança. Mas quem assim me vê, não sabe da força de uma fraqueza. Tenho em mim um Cabo das Tormentas, dia a dia dobrado e feito Esperança…
Medicina não é, como me disseram um dia, acusando-me de ter traído uma qualquer sensibilidade, víscera, febre ou dor explícita sem traço de delicadeza. Medicina é Humanidade e, não desmerecendo lavores, não creio que em nenhum outro esta lição seja tão crua e genuína. E por isso o privilégio.
Não quero escrever palavras poesia. Ou pretensas lições de moral. Na vida, tantas e tantas vezes, não há propósitos ou fins, análises ou conclusões. Vamos sendo…
Hoje, vi a lágrima, o grito de dor, o esgar, a fealdade. E sobretudo o olhar, humano e ressentido, humano e magoado, humano e parado de esperança. Hoje senti-me pequenina e miserável. Não quero esquecer. Construímos castelos de areia, embotamos a alma de frivolidades, e a nossa humanidade bate tão mais fundo…