domingo, 18 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

E tem coragem, menina?

Sobre a profissão que escolhi para a vida só escrevi duas vezes. É dessas palavras prenhes de silêncio, que nos cala a arrogância e nos veste de humildade e pequenez.
Sou estudante de Medicina…
É muito provável que os olhos se abram de espanto e a voz que os acompanha se me dirija…
- E tem coragem, menina?
E eu retraio-me e pinto-me de culpa, por ter ousado coragem, desprezando essa frágil fraqueza que tanto lêem em mim. E no instante seguinte, lá vou arvorando um sorriso e levemente respondo…
- Pois hei-de ter.
Há medos estrebuchando dentro de mim, mas eu cerro os punhos e disfarço. Ninguém me perdoa os meus vinte anos. Não ali, onde responsabilidade se escreve com letra grande e portentosa.
Olham-me de fora e vêem um rosto de menina. Talvez questionem, como eu questiono, a firmeza de espírito desta criança. Mas quem assim me vê, não sabe da força de uma fraqueza. Tenho em mim um Cabo das Tormentas, dia a dia dobrado e feito Esperança…
Medicina não é, como me disseram um dia, acusando-me de ter traído uma qualquer sensibilidade, víscera, febre ou dor explícita sem traço de delicadeza. Medicina é Humanidade e, não desmerecendo lavores, não creio que em nenhum outro esta lição seja tão crua e genuína. E por isso o privilégio.
Não quero escrever palavras poesia. Ou pretensas lições de moral. Na vida, tantas e tantas vezes, não há propósitos ou fins, análises ou conclusões. Vamos sendo…
Hoje, vi a lágrima, o grito de dor, o esgar, a fealdade. E sobretudo o olhar, humano e ressentido, humano e magoado, humano e parado de esperança. Hoje senti-me pequenina e miserável. Não quero esquecer. Construímos castelos de areia, embotamos a alma de frivolidades, e a nossa humanidade bate tão mais fundo…

"Há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra de ser menor e imperfeito.
Este é um livro de confissões. Uma peregrinação interior em que a bailarina torce o pé, o saltador derruba a barra, o arquitecto se senta debaixo da abóbada, e no fim, ela desaba.O médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda. O médico provoca o Criador, não lhe vai na finta, evita o engodo. Mas no cais despede-se, e pede perdão por não ter sido parceiro para tal desafio."

Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
It doesn't hurt me.
You wanna feel how it feels?
You wanna know, know that it doesn't hurt me?
You wanna hear about the deal I'm making?
You be running up that hill
You and me be running up that hill

And if I only could,
Make a deal with God,
And get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
Be running up that building.
If I only could, oh...

Running up that hill, Placebo

domingo, 11 de abril de 2010




Hoje recebi uma rosa branca. Todas as semanas minha mãe me oferece uma flor. “Para que se alegre o coração…” , lá vai dizendo.
Ela não sabe que faz versos. Tenho visto nascer assim tanta poesia… poesia que se escreve palavras, mas sobretudo gestos, entoações e olhares. E, sem que o saibamos, vamos sendo poetas por instantes…
As flores colhidas hão-de murchar, uma após outra. É o que penso e não sei porque o penso. Mas tenho pena…
Gosto de flores. Gosto da rosa em botão, colhida e oferecida, sem outro arranjo ou preparo; e tulipas alegria; e girassóis no quintal; e magnólias no jardim; e flores do campo no olhar… Gosto de flores. Gosto sim. Gosto tanto. Guardá-las-ei. Todas as flores que vou recebendo. Porque sei que a flor oferecida nunca se esquece. Pecado da alma seria…
Mas não me ofereças rosas, porque a rosa é essa flor tristemente bela, a flor da minha nostalgia.

Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

sexta-feira, 9 de abril de 2010

"...chovia aquela noite..."
- Chovia no sonho?
- Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias: então chove nos sonhos?
- Eu, poesias?
- Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas...
- Acha que isso é poesia?
- Então não é? Cortar-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores, cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá Doutor, que faca corta um líquido? Só a faca da poesia.
- Você é que anda muito inspirado nestes dias, meu caro Bartolomeu.
- Ah, é verdade! Há ainda mais outra: o senhor diz que beber me faz gota. Sabendo os litros que bebo, Doutor, é preciso muita poesia para falar em gota...

Venenos de Deus Remédios do Diabo, Mia Couto