quinta-feira, 15 de abril de 2010

"Há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra de ser menor e imperfeito.
Este é um livro de confissões. Uma peregrinação interior em que a bailarina torce o pé, o saltador derruba a barra, o arquitecto se senta debaixo da abóbada, e no fim, ela desaba.O médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda. O médico provoca o Criador, não lhe vai na finta, evita o engodo. Mas no cais despede-se, e pede perdão por não ter sido parceiro para tal desafio."

Sinto Muito, Nuno Lobo Antunes
It doesn't hurt me.
You wanna feel how it feels?
You wanna know, know that it doesn't hurt me?
You wanna hear about the deal I'm making?
You be running up that hill
You and me be running up that hill

And if I only could,
Make a deal with God,
And get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
Be running up that building.
If I only could, oh...

Running up that hill, Placebo

domingo, 11 de abril de 2010




Hoje recebi uma rosa branca. Todas as semanas minha mãe me oferece uma flor. “Para que se alegre o coração…” , lá vai dizendo.
Ela não sabe que faz versos. Tenho visto nascer assim tanta poesia… poesia que se escreve palavras, mas sobretudo gestos, entoações e olhares. E, sem que o saibamos, vamos sendo poetas por instantes…
As flores colhidas hão-de murchar, uma após outra. É o que penso e não sei porque o penso. Mas tenho pena…
Gosto de flores. Gosto da rosa em botão, colhida e oferecida, sem outro arranjo ou preparo; e tulipas alegria; e girassóis no quintal; e magnólias no jardim; e flores do campo no olhar… Gosto de flores. Gosto sim. Gosto tanto. Guardá-las-ei. Todas as flores que vou recebendo. Porque sei que a flor oferecida nunca se esquece. Pecado da alma seria…
Mas não me ofereças rosas, porque a rosa é essa flor tristemente bela, a flor da minha nostalgia.

Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

sexta-feira, 9 de abril de 2010

"...chovia aquela noite..."
- Chovia no sonho?
- Oh, Doutor, o senhor sofre mesmo de poesias: então chove nos sonhos?
- Eu, poesias?
- Não é de agora. O senhor já anda poetando há muito tempo. Por exemplo, quando o senhor me aconselha para eu cortar nas bebidas...
- Acha que isso é poesia?
- Então não é? Cortar-se na bebida? A gente pode cortar nas árvores, cortar na roupa, cortar sei lá onde, mas diga lá Doutor, que faca corta um líquido? Só a faca da poesia.
- Você é que anda muito inspirado nestes dias, meu caro Bartolomeu.
- Ah, é verdade! Há ainda mais outra: o senhor diz que beber me faz gota. Sabendo os litros que bebo, Doutor, é preciso muita poesia para falar em gota...

Venenos de Deus Remédios do Diabo, Mia Couto

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Talvez esperança se leia sonho do avesso

Ensinam aos homens a esperança. A esperança como arrimo. Tantas e tantas vezes descabida, mas Esperança. O castelo dos homens também se sustém na mentira. Palavra feia e dengosa, mas necessária, pois que, se a consciência aguda, a fria razão pulsasse em nós em cada instante, o nosso destino seria a loucura (talvez a loucura seja o forçar do sonho, quando a humanidade lhes pesa, talvez). Há a crueza do sentir. Há humanos sentimentos desumanos. E nós não somos deuses. Não nisto.

sábado, 3 de abril de 2010

Intervalo





A menina ficou presa num rebate de vaidade. O vestido era lindo. Um tecido leve estampado de flores que lhe assentava gentilmente sobre o corpo esguio. E aquele pormenor… a fita cor de rosa que lhe envolvia a cintura, ajustando-se num laço que caía numa languidez airosa pelas costas.
Tanto gostou do vestido, que decidiu que não o compraria. Precisamente por isso, porque gostara tanto dele. Guardaria para si esta vaidade, vestiria a alma e não o corpo. Ficaria com a imagem, prescindindo do dia em que se olharia ao espelho e o vestido, gasto pelo uso e pelo trato, lhe pareceria menos belo.
Naquela noite que seria a única, vestiu-se dele. Penteou o cabelo, escuro e escorrido. E esses seus cabelos foram cerejas numa primavera que haveria de desenhar pelo seu punho. E os lábios eram pétalas de uma flor a haver. E a pele era o aroma de uma carícia. E nos pés, as sabrinas que, mais tarde, noite dentro, descalçaria, porque quem dança com a lua tem os pés nus. Os pés nus e a alma despida.
E dançou. Com a alma transida de emoção, dançou. Dançou um sonho, um sonho menino que haveria de crescer em si, com a força de um querer imenso, inquebrantável.
Menina, a luz que te brinda o olhar é tua e dos sonhos que te percorrem e animam só tu sabes. E dançarás, menina. Dançarás sonhos, sentimentos, sensações. Dançarás medos, fracassos, desilusões. Dançarás instantes e eternidades. Dançarás aromas e sabores. Dançarás vozes e olhares. Dançarás a vida, aquela que te encontra e aquela que perseguirás, teimosamente, até que te aconteça.
Dançarás, como danças hoje, banhada pela luz branca de uma lua feiticeira…