
A menina ficou presa num rebate de vaidade. O vestido era lindo. Um tecido leve estampado de flores que lhe assentava gentilmente sobre o corpo esguio. E aquele pormenor… a fita cor de rosa que lhe envolvia a cintura, ajustando-se num laço que caía numa languidez airosa pelas costas.
Tanto gostou do vestido, que decidiu que não o compraria. Precisamente por isso, porque gostara tanto dele. Guardaria para si esta vaidade, vestiria a alma e não o corpo. Ficaria com a imagem, prescindindo do dia em que se olharia ao espelho e o vestido, gasto pelo uso e pelo trato, lhe pareceria menos belo.
Naquela noite que seria a única, vestiu-se dele. Penteou o cabelo, escuro e escorrido. E esses seus cabelos foram cerejas numa primavera que haveria de desenhar pelo seu punho. E os lábios eram pétalas de uma flor a haver. E a pele era o aroma de uma carícia. E nos pés, as sabrinas que, mais tarde, noite dentro, descalçaria, porque quem dança com a lua tem os pés nus. Os pés nus e a alma despida.
E dançou. Com a alma transida de emoção, dançou. Dançou um sonho, um sonho menino que haveria de crescer em si, com a força de um querer imenso, inquebrantável.
Menina, a luz que te brinda o olhar é tua e dos sonhos que te percorrem e animam só tu sabes. E dançarás, menina. Dançarás sonhos, sentimentos, sensações. Dançarás medos, fracassos, desilusões. Dançarás instantes e eternidades. Dançarás aromas e sabores. Dançarás vozes e olhares. Dançarás a vida, aquela que te encontra e aquela que perseguirás, teimosamente, até que te aconteça.
Dançarás, como danças hoje, banhada pela luz branca de uma lua feiticeira…

