quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tempestade

Hoje sou de gelo e frio.
E quero o ruído, quero a superficialidade. Quero os rostos e vozes desencontradas. Quero as palavras fáceis desses que gritam lá fora. Quero que essas palavras, ocas, vazias de pretensões de estilo ou alma, me calem. Quero que se cale a voz do sonho, quero que a calem. Quero o desengano de uma solidão ruidosa, disfarçada.
Hoje sou de gelo e frio.
E procuro o esquecimento neste lugar feito de rostos e vozes estranhas. Fujo, como um condenado que se recusa a ver e aceitar. Fujo para longe, mas até aqui a solidão me toca. O medo grita mais que todos os gritos.
Hoje sou de gelo e frio.
E o sussurro desse vento rude e grosso a não me deixar esquecer. E a lembrança de uma noite que se vai construindo instante a instante. A noite, o espelho mais duro, a solidão mais sentida, o assombro. A noite encontra-nos. Encontrar-nos-á sempre.
Hoje sou de gelo e frio.
E o maior medo está dentro de mim.


o teu sono anoiteceu mais que a noite
e hei-de escrever-te sempre sem que nunca
te escreva sei as palavras que fechaste
nos olhos mas não sei as letras de as dizer
ensina-me de novo se ensinares-me for
ir ter contigo e ao teu sorriso ensina-me
a nascer para onde dormes que me perco
tantas vezes numa noite demasiado pequena
para o teu sono num silêncio demasiado fundo
dormes e tento levantar a pedra que te
cobre maior que a noite o peso da pedra que
te cobre e tento encontrar-te mais uma vez
nas palavras que te dizem só para mim
o teu sono anoiteceu mais que as mortes
que posso suportar e hei-de escrever-te
sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

José Luís Peixoto


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

... morremos
talvez sem notarmos que morremos muitas vezes
e que levamos camadas de luto sobrepostas na pele.

José Luís Peixoto

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O vendedor de flores


Ano após ano, nesse dia, reúne as flores que não vendeu e encaminha-se para a velha ponte. Aí se senta, aí as dispõe. Rosas, sobretudo rosas.
Pega em cada uma delas. Um gesto de delicadeza inconsciente. Como se cada flor fosse um coração humano. Como se intuísse a fragilidade…
Corta-lhes o caule e pousa-as na água. Todas as rosas, excepto uma. E elas lá vão, no suave embalo da correnteza.
Na manhã do dia seguinte, olhos tristes que se passeiem pelo rio, iluminar-se-ão por um instante. Uma mensagem de esperança. Um sorriso do deus distraído que faz do desencontro a maior marca da nossa vida. E, por um instante, olhos tristes deixarão de o ser…
Talvez no ano seguinte, os olhos tristes ainda mais tristes se passeiem por aquelas águas benditas. E, uma vez mais, as rosas virão ao seu encontro pelas mãos de um desconhecido.
O vendedor de flores levanta-se. A última flor na mão. No seu caminho de casa, escolhe uma porta ao acaso. Todos os anos uma porta diferente. E aí pousa a última flor. Com uma mensagem muito singela… “Em algum lugar, há alguém que te ama…”.
Sei-o.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Amor.

Escrever amor.
Esta noite, rodeei-me de palavras que dizem amor. E um coração de vidro estalou de comoção por se encontrar aí, nesse espaço feito de palavras ternas, espreitando os olhares que se fitam com a urgência desesperada de um querer sem freio ou medida.
Percebi que amor já foi escrito muitas vezes. Mas, de cada vez, em cada coração, há um mundo que nasce. Cada novo dito tem a beleza de um sentimento que nasceu puro e intocado. Também eu gostaria de escrever amor. Como quem procura. Como quem espera encontrar. Mas como se escreve o estremecimento da alma? É difícil escrever todas as palavras do mundo; ou o silêncio gritante, que surge como marca de um pasmo ou rendição.
O amor como fraqueza da alma. A fraqueza mais forte. O amor como uma medida do impossível. Mas uma impossibilidade tão certa…
Escrever amor. Não sei e por isso calo. Calar amor. Calar amor no silêncio comovido de um coração que bate no compasso de um sentimento sem nome.

O Beijo