Hoje sou de gelo e frio.
E quero o ruído, quero a superficialidade. Quero os rostos e vozes desencontradas. Quero as palavras fáceis desses que gritam lá fora. Quero que essas palavras, ocas, vazias de pretensões de estilo ou alma, me calem. Quero que se cale a voz do sonho, quero que a calem. Quero o desengano de uma solidão ruidosa, disfarçada.
Hoje sou de gelo e frio.
E procuro o esquecimento neste lugar feito de rostos e vozes estranhas. Fujo, como um condenado que se recusa a ver e aceitar. Fujo para longe, mas até aqui a solidão me toca. O medo grita mais que todos os gritos.
Hoje sou de gelo e frio.
E o sussurro desse vento rude e grosso a não me deixar esquecer. E a lembrança de uma noite que se vai construindo instante a instante. A noite, o espelho mais duro, a solidão mais sentida, o assombro. A noite encontra-nos. Encontrar-nos-á sempre.
Hoje sou de gelo e frio.
E o maior medo está dentro de mim.
