quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010



terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

... morremos
talvez sem notarmos que morremos muitas vezes
e que levamos camadas de luto sobrepostas na pele.

José Luís Peixoto

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O vendedor de flores


Ano após ano, nesse dia, reúne as flores que não vendeu e encaminha-se para a velha ponte. Aí se senta, aí as dispõe. Rosas, sobretudo rosas.
Pega em cada uma delas. Um gesto de delicadeza inconsciente. Como se cada flor fosse um coração humano. Como se intuísse a fragilidade…
Corta-lhes o caule e pousa-as na água. Todas as rosas, excepto uma. E elas lá vão, no suave embalo da correnteza.
Na manhã do dia seguinte, olhos tristes que se passeiem pelo rio, iluminar-se-ão por um instante. Uma mensagem de esperança. Um sorriso do deus distraído que faz do desencontro a maior marca da nossa vida. E, por um instante, olhos tristes deixarão de o ser…
Talvez no ano seguinte, os olhos tristes ainda mais tristes se passeiem por aquelas águas benditas. E, uma vez mais, as rosas virão ao seu encontro pelas mãos de um desconhecido.
O vendedor de flores levanta-se. A última flor na mão. No seu caminho de casa, escolhe uma porta ao acaso. Todos os anos uma porta diferente. E aí pousa a última flor. Com uma mensagem muito singela… “Em algum lugar, há alguém que te ama…”.
Sei-o.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Amor.

Escrever amor.
Esta noite, rodeei-me de palavras que dizem amor. E um coração de vidro estalou de comoção por se encontrar aí, nesse espaço feito de palavras ternas, espreitando os olhares que se fitam com a urgência desesperada de um querer sem freio ou medida.
Percebi que amor já foi escrito muitas vezes. Mas, de cada vez, em cada coração, há um mundo que nasce. Cada novo dito tem a beleza de um sentimento que nasceu puro e intocado. Também eu gostaria de escrever amor. Como quem procura. Como quem espera encontrar. Mas como se escreve o estremecimento da alma? É difícil escrever todas as palavras do mundo; ou o silêncio gritante, que surge como marca de um pasmo ou rendição.
O amor como fraqueza da alma. A fraqueza mais forte. O amor como uma medida do impossível. Mas uma impossibilidade tão certa…
Escrever amor. Não sei e por isso calo. Calar amor. Calar amor no silêncio comovido de um coração que bate no compasso de um sentimento sem nome.

O Beijo



A loucura


Tinha nome de vida inconformada e lembrança de um amor infinito que me ligou a mim, Pedro de Portugal, a D. Inês, a do «colo de garça».
Trazia memórias de Inês e pregões de motivos injustiçados pela sua morte. Desde aí fui justo, sisudo e louco ao mesmo tempo.
Não sei se se ama alguém com loucura, ou se se ama a loucura por motivo de alguém.
De repente, num dia certo, no meio daquela larga rua da vida, deixa de saber-se onde se está, nem o que se é ou quem.
E fica-se preso à fixidez branca de uma ideia imóvel, feita memória perene.
A voz começou-me a deslizar em ruínas sob a minha gaguez. Roía-me o pensamento, estorvado de exprimir-se.
Quem é que morreu no dia em que morreste, Inês?
A vida somos sempre nós e mais alguém. Mas quando um morre, todos morrem. Sobrevivem apenas pedaços, desencontrando-se no caminho interrompido.
O vento faz o seu caminho e o apaga na passagem.
Só o homem tem sempre vontade de voltar ao impossível.

O amor infinito de Pedro e Inês, Luis Rosa

"O que me comove tanto neste principezinho adormecido é a sua fidelidade a uma flor, é a imagem de uma rosa que, mesmo quando ele dorme, brilha lá dentro como a chama de uma vela."
O principezinho, Saint-Exupéry