domingo, 14 de fevereiro de 2010

A loucura


Tinha nome de vida inconformada e lembrança de um amor infinito que me ligou a mim, Pedro de Portugal, a D. Inês, a do «colo de garça».
Trazia memórias de Inês e pregões de motivos injustiçados pela sua morte. Desde aí fui justo, sisudo e louco ao mesmo tempo.
Não sei se se ama alguém com loucura, ou se se ama a loucura por motivo de alguém.
De repente, num dia certo, no meio daquela larga rua da vida, deixa de saber-se onde se está, nem o que se é ou quem.
E fica-se preso à fixidez branca de uma ideia imóvel, feita memória perene.
A voz começou-me a deslizar em ruínas sob a minha gaguez. Roía-me o pensamento, estorvado de exprimir-se.
Quem é que morreu no dia em que morreste, Inês?
A vida somos sempre nós e mais alguém. Mas quando um morre, todos morrem. Sobrevivem apenas pedaços, desencontrando-se no caminho interrompido.
O vento faz o seu caminho e o apaga na passagem.
Só o homem tem sempre vontade de voltar ao impossível.

O amor infinito de Pedro e Inês, Luis Rosa

"O que me comove tanto neste principezinho adormecido é a sua fidelidade a uma flor, é a imagem de uma rosa que, mesmo quando ele dorme, brilha lá dentro como a chama de uma vela."
O principezinho, Saint-Exupéry



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Um véu de tristeza…

…um cisco na alma…

… uma nostalgia do ser…

… uma solidão que ainda não aprendeu a sê-lo e se revolta…

O Sol já se pôs, pequeno príncipe. Onde encontrarei, hoje, a minha gota de cor?


Ah, principezinho! Assim fui conhecendo, aos poucos, a tua melancólica vidinha! Durante muito tempo, a tua única distracção foi a beleza dos crepúsculos. Fiquei a sabê-lo na manhã do quarto dia, quando me disseste:
- Gosto muito dos pores-do-sol. Vamos ver um pôr-do-sol...
- Mas primeiro temos de esperar...
- Esperar por quê?
- Esperar que o Sol se ponha.
Começaste por ficar espantado, mas, depois, riste de ti próprio. E disseste-me:
- Ainda julgo que estou no meu sítio...
Pois é. Quando os relógios marcam meio-dia nos Estados-Unidos, toda a gente sabe que o sol se está a pôr em França. Bastava poder chegar a França num minuto para se assistir ao pôr-do-sol. Mas, infelizmente, a França fica longe de mais. No teu planeta pequenino só precisavas de empurrar a cadeira. E vias quantos crepúsculos quisesses...
- Um dia vi o Sol pôr-se quarenta e três vezes!
E pouco depois, acrescentaste:
- Sabes, quando se está muito, muito triste, é bom ver o pôr-do-sol...
- E no dia das quarenta e três vezes estavas assim tão triste?
Mas o principezinho não me respondeu.
O Principezinho, Saint-Exupéry

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010



… E, vezes sem conta, dei por mim estacada diante de um velho casario. Do lado de fora de muros e portões, quieta, muito quieta, quedada numa contemplação silenciosa e reverente. Essas velhas casas olham-nos, vigilantes e, nesse olhar, velho de tempo e gerações, velho de vida, desenha-se uma dignidade solene, que nos modera os gestos e a alma.
Altivo o porte, sobranceiro o olhar e um fascínio que não saberei explicar. A pedra antiga e gasta. A beleza de cada detalhe. Os brasões como símbolo de uma força vulnerável. O tempo escorrendo húmido e frio pelas paredes cansadas. E as histórias, sobretudo elas. Não são casas, são memórias empedradas.
Nesse dia, o meu destino foi aquela casa. Entre as muitas que vi, foi aquela. Todas as outras, mal grado a idade de séculos, conservam ainda um resquício de vida. Aquela não. Foi bela. Certamente que sim. Hoje, sorri debilmente, as janelas entaipadas, o rosto cerrado de uma morada esquecida. E as flores, sim, as flores… também elas ressequidas, exauridas, cansadas, esgotadas. Flores que venderam a alma naquele lugar de silêncio e que para lá ficaram, carcaças de uma beleza que só lembra pela memória a que faz apelo.
Naquele dia, o meu destino foi esse lugar. Toquei a pedra fria com a minha mão, fria também, como sempre está. Subi a escadaria. Olhos estranhos que me vissem, talvez me apontassem o dedo pelo atrevimento. Mas olhos estranhos nada sabem e, naquele instante, eu pertencia ali. Sentei-me num degrau e assim fiquei, sonhando um passado que não me pertencia, sentindo uma saudade que tinha o meu nome inscrito, mas não era minha. E lembrei-me daquela canção, aquela que fala de uma casa como se falasse de uma mulher magoada…


"E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa "



sábado, 30 de janeiro de 2010


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral