domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma lágrima

Uma lágrima…
Um pedaço de alma que se recorta e desliza serenamente pelo meu rosto. Com a serenidade das coisas velhas e aprendidas.
E.
"... e uma lágrima é morrer tão completamente."
José Luís Peixoto

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"Haverá um destino para cada um de nós?"


Não.
Escrevemos a vida. Mão firme ou hesitante, mas nossa.
Partir ou ficar, sou eu quem decide.
O que somos, o que vamos sendo… Depende de nós. Há o acaso, há a circunstância, há a vida, mas a força da nossa vontade é maior, deveria ser maior.

Sim.
Há um destino, na medida em que há um sonho; sonhos a nascer descontrolados dentro de nós.
Há um destino, na medida em que há algo que amamos, sejam pessoas, lugares, palavras.
Há um destino na medida em que amamos alguém ou alguma coisa sem sabermos porquê.
Há um destino porque, se a mudança é possível (e eu acredito que sim), há um espaço muito íntimo no interior de cada um de nós onde nada chega, um espaço com um cunho de imutabilidade.
Há um destino na medida em que, e tantas vezes desejei que assim não fosse, no essencial, somos o que somos.
Há um destino e, por força de tanto querermos, haveríamos de lá chegar.
Há um destino, porque a maior tristeza do mundo é a traição a nós mesmos.
Há um destino, só não sei se somos nós que o traímos ou se é a vida que nos trai, quando passa e não nos olha.
Há um destino, nem que seja um destino incumprido…
(Para ti, mana, porque gostaste e soubeste dizê-lo... porque gostas sempre...)
“Do not let your fire go out, spark by irreplaceable spark in the hopeless swaps of the not-quite, the not-yet, and the not-at-all. Do not let the hero in your soul perish in lonely frustration for the life you deserved and have never been able to reach. The world you desire can be won.
It exists.. it is real.. it is possible.. it's yours."
Ayn Rand

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O quarto


Durante as férias de Verão, decidiu mudar o quarto que, até aí, nunca tinha sido verdadeiramente seu. Era o seu quarto, mas nunca foi o seu refúgio. Decidiu, pois, mudá-lo. Sozinha, arrumou em caixas e caixotes todo o bricabraque da sua infância. Sozinha, pintou as paredes. Sozinha, envernizou os móveis que um dia, pequenita, escolhera para si (já então tinha estranhas ideias e qualquer mobília de quarto serviria, contanto que tivesse uma escrivaninha; fez-se a busca à tal escrivaninha encantada, e ela apareceu:
- Gostas desta?
- Gosto sim, pai.
E aquela ficou. E aquela ainda está.)
Pintou e envernizou com um empenho louco e com uma felicidade imensa dentro de si; com o empenho desmedido de quem, pintando um quarto, se pinta a si mesma, se pinta mais forte, mais autónoma, mais capaz; com a felicidade imensa de quem percebe que, por vezes, entre a vontade e o acto de a tornar real, tangível, o passo é mais pequenino do que se julga. Ousar. Atrever-se. Vencer-se. Compreender que a maior entrave não está no mundo lá fora, mas dentro de nós, nos medos, inseguranças e fragilidades que criaram raízes no que nos define, no que a define.
Hoje está sentada nesse quarto, dedilhando o teclado de um computador, escrevendo não sei o quê, escrevendo não sei para quem, escrevendo não sei porquê.
O quarto é pequenino. Nele não caberia aquele toucador que vira este domingo enquanto passeava por uma loja num centro comercial. Mas não importa, tem uma escrivaninha, uma cadeira de balanço e a recordação de um toucador (tão lindo…) que não caberia no seu quarto.
Hoje, o quarto está um pouco desarrumado, mas era mesmo essa a intenção. Não é, pois, uma verdadeira desordem ou, pelo menos, não desta vez. Se a desordem é construída, premeditada, trabalhada, então será talvez e tão-somente uma ordem diferente. Quando veio para casa, passar as férias de Natal, o quarto, na simetria, no rigor da disposição dos escassos objectos que hoje o preenchem, pareceu-lhe frio, pouco acolhedor; há vida num certo tipo de desordem, da mesma forma que, no escrúpulo de certo tipo de ordem, se adivinha a sua ausência.
Não há fotografias no quarto. O pai perguntou-lhe se gostaria de receber uma máquina este Natal. Talvez gostasse, mas não para fotografar as pessoas e os momentos da sua vida. Fotografaria apenas os recortes da paisagem lá fora e talvez um ou outro sentimento espelhado no rosto de um desconhecido. Quem sabe.
Em relação aos momentos da sua vida, percebeu há muito que o que se guarda, o que se recorda, são os sentimentos e esses não cabem numa película fotográfica. Um dia, em Itália, sentada numa praça, sentiu o que poucas vezes nos é dado sentir. Uma profunda gratidão, naquele momento em que o mundo foi belo e perfeito. Houve alguém que a fotografou nesse instante e, mais tarde, lhe ofereceu o registo. Essa fotografia nada diz, nada vale. Nos grandes momentos da nossa vida, as fotografias ficam aquém.
Já os rostos nas molduras assustam-na e tantas vezes fazem doer. As fotografias são mentirosas. Há nelas uma perversidade disfarçada, a perversidade do tempo…joguetes que somos nas mãos dos deuses. Nas fotografias da menina que foi, magoa-a o seu olhar de criança, a certeza de que nesse olhar havia sonhos. Tê-los-á esquecido? A maior tristeza do mundo é a traição a nós mesmos…
Mas o que dói, o que queima é a ironia triste daquele momento de vida suspenso, quando a vida já não existe. (O que dói, o que ME queima, o que ME estilhaça por dentro é o sorriso do MEU avô, o sorriso desdentado e travesso do MEU avô. O sorriso mais lindo do mundo.)
Não tem fotografias no quarto. Alguns objectos, poucos. E livros, sobretudo livros… Os livros que sobreviveram aos anos e a si mesma. Os livros e todas as palavras desencontradas que guarda dentro da escrivaninha: os seus rascunhos, as suas cartas, a letra de uma canção, um poema ou uma frase que leu ou ouviu algures e que copiou para um papel… pois que, podendo, tê-los-ia escrito na alma. Uma colecção de palavras.
Dezembro de 2009

Um começo...

Hoje é o último dia do ano. Um fim, um recomeço e tanta nostalgia. A vida é um continuum e, após a balada da meia-noite, nada terá mudado, a não ser, talvez, essa lufada de ânimo, essa vontade, mais vincada, mais presente, de mudar alguma coisa. E todavia, apesar do desejo de mudança, há tanta coisa, nas nossas vidas, que gostaríamos que durassem para sempre.
No último dia do ano, eu vou escrever e talvez amanhã escreva de novo, e depois e depois…
Escrever, escrever, escrever… como se nada tivesse sido escrito, como se todas as folhas estivessem em branco, como se a invenção da palavra fosse o aqui, o agora, o eu.
O tudo, o nada, a mediocridade. Voar no topo da montanha ou no mais baixo do céu. Sempre preferi o nada à mediocridade, ao meio-termo, ao satisfatório. Hoje, reconheço que, por mais modestas que sejam as minhas palavras, elas definem uma parte importante do que sou. Eu vou escrever e ficar aquém, eu vou escrever e falhar, mas vou escrever!