quarta-feira, 13 de junho de 2012


Ouvem-se azuis na noite. E, na hora sonâmbula, ela sente dedadas frias na pele e sabe que há-de cuspir a alma pelos olhos molhados até adormecer de cansaço. A loucura que os deuses ofertam como abrigo entre os nadas e as solidões.

Sempre que adormecer na brisa, haverá alguém que a carregue em braços para um lugar mais de dentro?

Pergunto-me se acaso sentes o que há de encanto no amor sem sangue, incondicional, gratuito. O que há de encanto em fazer de um estranho, à custa de tanto amor, a pele tua num abraço. O que há de encanto em habitar sonhos alheios, sabendo-te olhada como coisa preciosa.

Pergunto-me se sabes o quanto dói esta visão vicariante da vida. A coragem de ser fraco na fraqueza alheia,  que se quer força e cavaleiro e lança, mas que tantas vezes vacila. Pergunto-me se sabes que a dor que não sentes em ti é dor no outro, mas é dor também.

Sabes de uma coisa? Era ela a menina que lia romances de amor. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012



Quando trovejava, eu emudecia. Um mundo que perde a razão desconcerta. Talvez como uma criança que olha um adulto que se verga em fragilidade e chora ou se atiça em loucura e grita. O descontrolo, a subversão da ordem, a entropia minando o mundo de medos. 
E alguém me dizia que me afastasse da porta. E eu juro que não era pelo gosto de me deitar ao desafio. O certo que é que me postava à entrada e para ali ficava, como quem espreita um espetáculo proibido. Um fascínio idêntico ao que me levava a correr de braços abertos nas chuvas improváveis de Verão. Mas era feliz dançando à chuva, dessa felicidade de bicho, com gosto a fruta e cheiro a terra molhada. Já quando olhava as nuvens escuras que relinchavam trovões, o que sentia era respeito, esse respeito temeroso de quando se olha uma imagem numa igreja. 
E diziam-me que era Deus descontente com as faltas humanas. E eu sabia que sim, assim mo dizia o meu reportório de culpas. Porque eu era uma criança que pecava. 
A um canto a tia-avó rezava baixinho. Santa Bárbara bendita que no céu está escrita… Se pedia, eu rezava também e a oração, repetida vezes a fio, mais parecia um encantamento. 
A velha tia, de lenço preto atado debaixo do queixo e constantemente desfiando as contas do rosário, pedindo por ela e por mim e por todos. E a primeira oração que me ensinou, que falava de um anjo companhia que guarda as almas noite e dia...

quinta-feira, 15 de março de 2012




Uma mulher rasga loucuras em verso. Na noite. Que o dia frívolo, num asseio de menino bem, escarnece da morte e desdenha dos medos. E a beleza do que nasce não é gratuita, é sangue escuro e lágrimas quentes e torreões de medos e solidões. E a tenaz dos sonhos e os campos de flores silvestres. Também.
Que sabes da mulher que escreve na noite?
Dos vícios malditos da alma,
dos despertares que não dormem,
da razão que cria monstros banhada em loucura,
dos enredos e segredos que crescem avulsos,
das conjuras de um destino que nasceu antes, rei e senhor?
A pele é só a fronteira mate da violência que tem dentro, feita de demónios e mundos de sete luas pintadas. E grita em silêncio e quando chora ri e é o tudo e o seu contrário numa escada que serpenteia dos céus abonados aos infernos mais fundos.  E é bela a Flor, mas maldita.
Há versos que nascem paridos da insónia e, na noite, a princesa olha o espelho e toda a vaidade se esvai e ela é um cadáver que chora.


domingo, 5 de fevereiro de 2012



Era uma cigana, dessas que vendem destinos a troco de uma moeda. Verão seria, que me lembra o vestido branco de algodão que usei nesse dia. A cigana, longo cabelo, saia rodada, um xale de lantejoulas, mas verão seria, porque o vestido era branco. 
Eu desviei-me, assim como quem contorna um destino, mas adiante, a velha cigana salta-me ao caminho, agarra-me o braço e olha-me com olhos severos e maledicentes. Cada toque é uma violência, desejado ou não, mas ardendo sempre. Incomodou-me aquela mão estranha agarrando com força o meu braço nu, a pele que habito, a fronteira da minha intimidade. Desde pequena que tenho estranhos pudores. 
A força afrouxou, a mão dela desliza até à minha, troca o dorso pela palma e instintivamente os meus dedos abrem-se e dão-se-lhe. E com uma delicadeza que contradiz a rudeza da sua primeira abordagem, a velha pega na outra mão e expõe-na da mesma maneira. Duas mãos, porque há homens que nasceram com marcas de destinos vários, sete vidas os gatos, sete destinos o homem, mas só um nos é dado viver. Se acredito? Eu finjo. Porque é uma coisa bonita de se acreditar, o destino, a estrela de cinco pontas, a lua… 
Ela olha atentamente, cada prega um rabisco de uma vidência que eu não alcanço e de que suspeito. E vai falando baixinho, num linguarejo que não entendo. Vou imaginando o que me dirá, a felicidade costumada, sem saber que nem eu sei se é isso o que procuro. 
Estranho o que me disse. Cem lágrimas de distância. E enquanto vasculhava a carteira à procura do porta-moedas, volta-se e segue caminho, vendendo-me o destino a troco de nada.

domingo, 15 de janeiro de 2012



Em pequena, caminhava sobre um muro estreito e imaginava que o metro de distância ao solo era na verdade a medida negra de um poço sem fim. Bastava esse pensamento para que cada passo dado fosse mais cuidadoso, mas, caindo, nada de mal aconteceria, era só uma brincadeira que chegava ao fim. Às vezes brincava de funâmbulo no rebordo do lago e um dia caiu à água, mas também aí só o desconforto de uma roupa grossa de inverno, molhada e colada ao corpo, e o embaraço, em face do riso trocista de um menino que viu. Era fácil ter coragem e jogar os medos em jogos inconsequentes. 
Também é fácil a coragem quando lhe dizem que caminhe adiante e lhe seguem os passos de perto. E ela não olha para trás, conivente na intenção de se inventar uma coragem e uma força. 
Até que um dia, ela decide que quer ver o mundo. E o mundo está para lá da curva, num caminho de terra batida onde ninguém lhe guarda os passos. Quando olha o mapa sentado à sua frente, parece tão pouco o mundo e o comprimento exacto de um dedo há-de ser a distância da sua coragem. 
Pergunto-lha se acredita que ela vai ser capaz. À vontade de a proteger, contrapõe-se a necessidade de lhe ensinar a força e ele diz-lhe que sim, que tem que ser, como se a coragem fosse na verdade uma obrigação. Mas o que lhe lê no olhar é o receio que o mundo a devore, porque a menina que criou tem uma medusa de medos no lugar do coração.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Ele fala para ela e é sobre ela que lhe diz. Com a lógica fria de quem expõe um raciocínio, mas as palavras são delicadas, escolhidas até, como se a desenhasse com os dedos, mas de longe, assim de longe. 
Ela escuta sem se deixar perturbar. Ele fala-lhe dela como se falasse da personagem de um livro que o tivesse fascinado e ela escuta sem o menor constrangimento ou traço de rubor, a personagem tem o seu nome e é só. 
E quando ele se suspende, ela pede mais, com uma ingenuidade estudada ou só genuína mas velha, já não sei. E adiante perguntará como assim?, como se não tivesse entendido, mas é só a avidez que não cala e remorde. Porque a vaidade não tem fim, nascida irmã do medo fundo. O paradoxo de se ser tudo e tão pouco, caminhando em bicos de pés, mas de olhos baixos, expiando culpas. 
No entremeio, ele estica os dedos, querendo tocá-la. Ela retrai-se, o fácies tenso, agressivo, o olhar leonino, o sobressalto. 
Não é amor, é somente a sedução do impossível, a vontade de tocar o que é longe e intangível. E depois partir. E o abraço de hoje haveria de doer amanhã, mossa que ficou de uma intimidade vã, descartável. 
Diz-se da lágrima de uma sereia que é um tesouro. Buscá-la é coragem ou cobardia?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Dizes que não gostas da chuva e eu julgo compreender porquê. Não gostas da chuva porque não sabes ser triste e desconheces o peso de um olhar que constantemente se vidra num além que não existe.
E se a tristeza for somente uma vaidade do rosto, ou do olhar, digo que as linhas que te desenham lhe são longe.
A tristeza em ti é uma inocência. Ficaste calado e espantado enquanto a tristeza te acontecia. Eu olhei-te com certa altivez, como quem olha uma criança que não sabe do mundo. E eu juro que também não sei, mas gosto da chuva, como se tivesse nascido com sulcos de água no rosto.
Não sei que te disse, palavras de circunstância que seriam a marca de uma serenidade ou aceitação que eu nunca tive. Cansada de me ouvir, prometi-te um abraço, o único remendo que conheço.

sábado, 5 de novembro de 2011


Não saberia dizer há quanto tempo o silêncio. De repente, ergueu a cabeça do livro, estranhando o silêncio gritante num autocarro cheio de gente. Gente fala de tudo e constantemente, num chorrilho de sabedorias sem fim.
A mulher a seu lado não tem nome nem rosto. É uma mulher num assento de autocarro. Não sabe que essa mulher tem uma cereja no lugar da voz. Cereja cresce e vira maçã, grande e opressiva, e então a mulher solta um soluço que soa como uma imprecação no autocarro calado. Ela é raiva de si mesma porque não susteve as lágrimas e essa atrapalhação que sente, como quem cometesse uma indiscrição, é um pedido de desculpa. Também para a pessoa a seu lado, que não consegue fixar uns olhos lacrimosos e a espreita, constrangida com tamanha mostra de impudor. E talvez o mesmo olhar piedoso com que se olha um louco na rua.
Mas ela não é louca, não ainda, não dessa loucura que é um decreto dos outros. E, por isso, maior a estranheza dos que a tomam como igual. Os loucos são olhados com piedade e benevolência, são loucos que não ofendem, porque são loucos. Ela está no outro círculo e prevaricou. Foi um descuido. De ora em diante, terá o cuidado de ser louca numa caixa sem janelas, para que ninguém veja e se ofenda. E da próxima vez, fará da cereja um sorriso, numa hipocrisia que é o pão nosso de cada dia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Hoje lembrei-me que um dia vieste. Sem que to pedisse, porque nunca peço, mesmo querendo sempre e tanto. E se um dia pedir um abraço e mo negarem, hei-de forjar um sorriso que o olhar desatento entenderá como genuíno, e dizer que brincava apenas, abraço é tão quente, também não quereria. Mas queria e o que me ficará é a tristeza de coleccionar afectos extraviados. Hei-de mentir sempre e de todas as vezes.

Era noite e no quarto vazio caminhavam homens de vestes negras. A cereja na garganta crescia, prestes a desabar em lágrimas de menina. Mas tu vieste e deitaste o corpo a meu lado e encheste de ridículo todos os medos. Calaram-se os corvos lá fora e na noite abriu-se um silêncio que não era mais negro e onde cabia um sono de paz.

E depois partiste e deixaste um mundo onde cresciam bruxas e desfiladeiros. E eu só sei ser triste de tristezas inventadas, a tristeza que vem até nós verdadeira é fria e dói demais. E eu sou fraca e cobarde e fiz do meu mundo uma casa de bonecas, num mundo maior, de gigantes e intempéries.

Perdes-te na névoa da noite, diluis-te em sombras de castanheiro e lambes as feridas, dás sossego ao coração lá, nesse teu refúgio de conchas, de mar, de azul-turquesa. Nesse lugar não há ninguém, apenas tu e os sonhos a que te entregas e em que te embalas. Lá nada dói, não há dúvidas, conflitos, voltaste ao útero, ao cálido oceano que te sustém e onde te guardas. Nunca trouxeste esses sonhos para a luz do dia e, por isso, quando regressas àquilo que para ti é a vida corres, corres sem parar, como se pudesses encher de pressa esse vazio que te fica. Sabes que não; e os sonhos sem a vida vão desbotando e a vida sem o que sonhas fica apenas um espectro de transparentes promessas.

Maria João Saraiva

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Era o matraquear de saltos agudos contra o mármore da escadaria. Insolente, contra a ternura dos pianíssimos que se escapavam pela soleira do apartamento do primeiro direito posterior. E eu sei, porque me aproximei como um ladrão e senti os frémitos na ponta dos dedos. Ali, a música nascia, ali o útero.
Ou então a música soou dentro, pelas mãos fantasmas de um ser gentil que te seguraria a alma em momentos. Alma é uma palavra tão gasta, mas continua a sair-me dos dedos como um sonho cansado. São patranhas ridículas ou nasceste mesmo para desejar cinco quartos de lua e não menos?
Descalçou os sapatos de saltos agudos e despiu os pés em passos etéreos. E subiu-se à ponta dos dedos, justamente como fazia nas aulas de dança, e ficou mais perto, de uma altura de deuses.
Se viesses, eu venderia a lua a um estranho e um dia, chegaria muito perto e dir-te-ia ao ouvido que há uma menina que vive fugindo, porque roubou aos deuses um toque de midas. E quando morrer, ninguém saberá que caminhava no mundo com uma estrela de cinco pontas escondida nos cabelos. Mas tu haverias de saber.

sábado, 20 de agosto de 2011

É alto, caminha um palmo acima e ela não lhe vê os olhos. Por isso deseja que lhe trave o passo e lhe pouse os lábios na fronte ou no cabelo. Só para lhe saber do amor, que nunca é eterno e se conhece instante a instante. Mas o amor atrasa-se constantemente.
Adiante, ela pega-lhe na mão. A sua mão direita e a mão esquerda dele. Só quando estão de frente as mãos se olham em espelho. Fá-lo parecer natural, espontâneo, como se nem tivesse reparado na mão que se escapou do orgulho. Mas queima e os pensamentos, nesses instantes, são feitos de pele entrelaçada.
A dada altura, ela olha-o fixamente e abre-lhe um sorriso que é uma pergunta, uma intimação. Ele responde com um sorriso também. Mas.
Não espera palavras. Ocasionalmente, talvez. São gestos que quer. Gestos de amor para um vício de amor que não cura. E o egoísmo de o querer vulnerável num amor que o curvasse nos desejos e nas vontades.

(Que ames sempre. Eu amo, sobretudo às vezes. Foi um poeta quem disse, mas eu sou poeta também. No desajuste. E na coroa que me faz altivo o porte. E um rei não mendiga, nem sequer amor.)

sábado, 13 de agosto de 2011

À meia-noite, há uma menina que aprende a andar de bicicleta. E o som da campainha do guiador, riso fresco de criança, insinua-se através da janela, aberta, porque é uma noite de Verão e o calor.
No tempo em que os anos me cabiam nas mãos, também eu. O cesto da bicicleta branca que haveria de ter quando crescida estava repleto de flores que pedalavam rua abaixo numa liberdade feita de vento no rosto, loucura sem tino. Quando crescida, pensou ser devaneio de menina. Sonho aguardado, sonho relegado. Sonho que não cabe, afinal, em tempo algum.

Quem salvaria o mundo esta noite? Foste tu quem te escolheste, pois eu pensei que quisesse falar de amor.

Asas

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

(Antes de vir, por dias me rondei. Era medo. Do desencontro, talvez.)

Choveu, escutam-se as rodas nervosas no asfalto molhado e, nos entremeios, um silêncio gordo que é uma espécie de zumbido que se desenha em espirais.
Pergunto-me quem são e se acaso já olharam a noite de frente. Eu não. Espreito-a e temo e cobiço. E é a ela que vendo a minha intimidade.
E pressinto-a. A tristeza em mim não é sentida, é pressentida, entendes isso?
A noite. Tal como a música, entra-se em mim e entranha-se e quando o dia romper no alvoroço de uma luz muito branca, talvez persista ainda o desajuste.
O sono é o remedeio. Mas às vezes, até aí a lucidez se vence. E então abro os olhos e há um corpo deitado a meu lado. E então os olhos ardentes fixam as órbitas vazias de um olhar assombrado. É o medo.